
Enquanto o cinema brasileiro celebrava uma conquista histórica no cenário internacional, Rio Grande do Norte se despedia de uma de suas maiores artistas. No palco do Teatro Alberto Maranhão (TAM), o velório da atriz Titina Medeiros acontecia no mesmo instante em que o Brasil era anunciado vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, com o Agente Secreto; e de Melhor Ator em Filme de Drama, com o anúncio de Wagner Moura, um contraste que transformou o luto em símbolo.
Ao refletir sobre a fatídica coincidência, o escritor, jornalista e publicitário Mário Ivo Dantas Cavalcanti destacou a dimensão simbólica do momento por meio de uma postagem em sua conta no Instagram. “Não deixa de ter uma simbologia forte, quase mística e espiritual, o corpo de Titina estar sendo velado enquanto o Brasil vence o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e o de Melhor Ator em Filme de Drama. Há uma conexão real, que não se quebra, que não se interrompe, mesmo aparentemente representando momentos díspares”, afirmou.
Embora tenha alcançado projeção nacional através da teledramaturgia, Titina também foi destaque no cinema brasileiro, emprestando seu talento a obras como Malasartes e o Duelo com a Morte (2017) e o premiado Filhos do Mangue (2024), reafirmando sua versatilidade.
Legado de Titina marca o audiovisual potiguar
A trajetória de Titina Medeiros vai além do reconhecimento nacional conquistado no teatro e na televisão brasileira e ocupa um lugar central na história da cultura potiguar, especialmente no fortalecimento do audiovisual no interior do Rio Grande do Norte. Seridoense orgulhosa, a atriz foi uma das vozes mais ativas na defesa da produção cultural descentralizada, apostando no cinema como ferramenta de identidade, educação e transformação social. Sua atuação foi decisiva para projetos que hoje são referência além das divisas do RN, como o Curta Caicó, festival de cinema do Seridó que chega, em 2026, à sua 9ª edição.
Mais do que apoiar iniciativas culturais, Titina participou ativamente da construção de espaços de formação, debate e visibilidade para o audiovisual potiguar. Para o diretor e idealizador do Curta Caicó, Raildon Lucena, amigo pessoal da atriz, a importância de Titina começa ainda na concepção do festival, quando a ideia existia apenas como projeto. “Titina, seridoense, era uma pessoa que sempre defendeu a nossa região do Seridó. Em 2017, quando tivemos a ideia de criar o festival, procuramos Titina, e ela gravou um vídeo dizendo que o Curta Caicó estava nascendo, que era um festival da região do Seridó. Aquilo ajudou a impulsionar o projeto”, relembra.
Segundo Raildon, esse gesto inicial foi fundamental para dar visibilidade e credibilidade a uma iniciativa que surgia fora dos grandes centros. A partir daí, a presença de Titina se tornou constante. Ela participou das primeiras edições, acompanhou o crescimento do festival e manteve apoio permanente ao longo dos anos. “Ela sempre foi muito presente, participou das primeiras edições, esteve sempre nos apoiando. Com o tempo, a gente foi ficando cada vez mais próximo, e ela se tornou uma grande amiga”, afirma.
A relação entre os dois começou antes mesmo da criação do Curta Caicó. Raildon conta que conheceu Titina em 2007, quando trabalhava em Janduís, e que anos depois eles se reencontraram na estreia da peça Meu Seridó. Foi a partir desse reencontro que surgiu o convite para que a atriz se envolvesse diretamente com o festival. Já na primeira edição, Titina assumiu um papel ativo na programação, organizando e mediando um debate sobre o papel das mulheres no audiovisual, tema que sempre defendeu com firmeza e coerência.
Para Raildon, Titina reunia talento artístico e compromisso coletivo, características que marcaram sua trajetória. “Ela era uma pessoa muito generosa, sempre empolgada, com uma energia muito boa. Estava sempre incentivando outras pessoas a entrarem no mundo da arte, sempre levando a bandeira do Seridó”, diz. Na avaliação dele, a perda da atriz representa um vazio difícil de preencher. “O Rio Grande do Norte e o Brasil perdem uma de suas grandes atrizes, um nome que acreditava na cultura e que estava sempre abrindo caminhos para outras pessoas. ”
No contexto pessoal, Raildon relembra a luta de Titina contra o câncer e conta que usou sua vivência durante as conversas após o diagnóstico da atriz, na tentativa de fortalecê-la. “Eu vim acompanhando essa luta dela contra o câncer. Eu também tive câncer em 2013 e, quando ela recebeu o diagnóstico, a gente conversou como uma forma de dar força, de mostrar que era possível vencer”, afirmou. Raildon visitou Titina no mês de setembro e conta que a expectativa de superação esteve presente até o fim. “A gente sempre pôs aquela esperança de que ela ia conseguir superar”, completou.
Sobre o Curta Caicó
Madrinha do Curta Caicó, Titina Medeiros teve papel fundamental na consolidação de um dos principais festivais de cinema do interior do Rio Grande do Norte, realizado anualmente em Caicó desde 2018 com o objetivo de fortalecer o audiovisual local e aproximar o cinema do público seridoense. Ao longo dos anos, o evento se firmou como um espaço plural, com mostras, oficinas e debates que valorizam produções nacionais, potiguares e do Seridó, além de investir na formação de novos realizadores. O envolvimento de Titina desde o início contribuiu decisivamente para dar visibilidade, credibilidade e identidade a um projeto hoje central para a cultura da região.