CRIANÇAS E MULHERES FICARAM SEM ATENDIMENTO NA GESTÃO DE ALLYSON

A crise no atendimento de crianças e mulheres em Mossoró, denunciada ainda durante a gestão do ex-prefeito Allyson Bezerra, evoluiu para um Inquérito Civil do Ministério Público do Rio Grande do Norte após a Promotoria identificar um cenário de “desassistência sistêmica” e “iminência de colapso” na unidade de saúde.
A investigação teve início oficialmente em 3 de fevereiro de 2026, quando foi autuada a Notícia de Fato nº 02.23.2021.0000015/2026-28, a partir da manifestação nº 3509324012026-1 encaminhada à Ouvidoria do MPRN. A denúncia apontava falta de profissionais e graves deficiências nos serviços prestados pelo AMI, unidade vinculada à rede municipal administrada à época pela gestão Allyson Bezerra.
Logo na abertura do procedimento, o promotor de Justiça Rodrigo Pessoa de Morais expediu despacho inaugural sob documento nº 9038721, determinando diligências e solicitação formal de informações à Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró por meio do Ofício nº 9044492.
Com o avanço das apurações, o Ministério Público realizou inspeções na unidade e reuniu uma série de documentos internos do ambulatório. Em março, diante da gravidade dos indícios encontrados, o MP prorrogou o prazo investigativo através do documento nº 9306787.
Os dados mais preocupantes vieram à tona no Relatório Técnico nº 002/2026 do Ambulatório Materno Infantil, juntado ao procedimento em 28 de abril de 2026 sob documento nº 9566558. O relatório descreveu um quadro crítico na assistência à população materno-infantil e reforçou o agravamento da crise sanitária herdada da administração anterior.
Na própria recomendação ministerial, o MP afirma ter identificado “um cenário de desassistência sistêmica e iminência de colapso no Ambulatório Materno Infantil (AMI) de Mossoró/RN”.
O órgão também registrou que contratos temporários de profissionais essenciais “têm encerramento previsto para 15 de abril de 2026, sem previsão formal de reposição, configurando grave risco de paralisação dos serviços”.
Entre os pontos apontados pela investigação estão:
fila de 1.288 pacientes aguardando atendimento psicológico;
76,7% da fila composta por crianças;
pacientes esperando atendimento há até dois anos;
667 crianças e adolescentes classificados como Prioridade 0 e 1 (urgência e emergência) sem acesso efetivo ao atendimento;
99,1% das solicitações prioritárias paradas no sistema sob status “pendente”;
813 mulheres aguardando atendimento ginecológico;
ausência de estratégias de atendimento para 188 famílias da zona rural;
contratos temporários de psicólogos e psicopedagogos próximos do encerramento sem previsão de reposição.
O Ministério Público ainda destacou “a existência de uma fila de espera alarmante de 1.288 usuários para psicologia, sendo 76,7% crianças, com casos de espera que chegam a 2 anos”.
Em outro trecho duro da recomendação, o MP apontou que “667 crianças e adolescentes estão classificados em situação de emergência e urgência (Prioridades 0 e 1), mas permanecem retidos em um fluxo burocrático estagnado, onde 99,1% das solicitações estão paradas sob o status ‘pendente’”.
O relatório ministerial ainda revelou que a unidade operava com forte dependência de contratos temporários e sem planejamento para substituição dos profissionais, situação que poderia provocar interrupção completa de atendimentos especializados.
Outro problema identificado foi o uso excessivo do CID genérico Z00 nos encaminhamentos médicos, fator que, segundo o MP, compromete a regulação adequada das filas e dificulta a priorização dos casos mais graves.
Diante da gravidade da situação encontrada na estrutura de saúde deixada pela gestão Allyson Bezerra, o caso foi convertido em Inquérito Civil nº 04.23.2021.0000066/2026-72 no dia 7 de maio de 2026, através da Portaria nº 9624999.
No mesmo dia, o promotor Rodrigo Pessoa de Morais expediu a Recomendação Ministerial nº 9625073, direcionada à Prefeitura de Mossoró e à Secretaria Municipal de Saúde, determinando medidas urgentes para evitar o agravamento da crise.
Na recomendação, o MP cobrou:
Reposição imediata e ampliação do quadro de psicólogos, psicopedagogos e ginecologistas;
Convocação de aprovados em concurso público;
Criação de mutirões para pacientes classificados em situação grave;
Transparência nos critérios das filas de espera;
Melhoria na qualidade dos encaminhamentos clínicos feitos pelas unidades básicas de saúde.
Os ofícios encaminhando oficialmente a recomendação ao prefeito e à Secretaria Municipal de Saúde foram expedidos em 10 de maio de 2026 sob os números 9633350 e 9633311.

Já em 11 de maio, novas movimentações registraram solicitações formais de entrega dos documentos à Prefeitura e à Secretaria de Saúde, demonstrando que o Ministério Público intensificou a pressão institucional sobre a gestão municipal.
O órgão ministerial estabeleceu prazo de 10 dias úteis para que a Prefeitura informe se irá cumprir as medidas recomendadas. Caso contrário, o MP alerta que poderá adotar medidas judiciais cabíveis.
O avanço da investigação aumenta a pressão política sobre o legado administrativo da gestão Allyson Bezerra na saúde pública municipal, principalmente após o Ministério Público descrever oficialmente o cenário do AMI como de “desassistência sistêmica” e sob “iminência de colapso”.

























