ESPECIALISTAS AVALIAM QUE ABSTENÇÃO EXPÕE SINAIS DE DESCRENÇA POLÍTICA

A ausência de quase 489 mil eleitores nas urnas do Rio Grande do Norte no primeiro turno das Eleições 2026 expõe um desafio que vai além dos números: a relação entre população, instituições e participação política. Para especialistas ouvidos pelo Diário do RN, a abstenção eleitoral é resultado de uma combinação de fatores que envolvem desde a percepção de confiança no sistema democrático até dificuldades práticas enfrentadas por parte do eleitorado.
Dados da totalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, dos 2.656.207 eleitores aptos a votar no estado, 488.493 não compareceram às seções eleitorais, representando 18,39% do eleitorado potiguar. O comparecimento foi de 2.167.714 eleitores, equivalente a 81,61%.
Para o cientista político e professor titular de Teorias Sociológicas do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), José Antônio Spinelli Lindozo, parte da abstenção integra a dinâmica das democracias liberais, mas índices mais elevados podem refletir um sentimento de afastamento da população em relação às instituições.
“Em nossas democracias liberais, isso não é apenas típico do Brasil, da América Latina ou do Terceiro Mundo, é próprio das democracias liberais. Há um certo nível de abstinência que o próprio sistema absorve, quer dizer, é uma abstinência que não deslegitima o sistema”, explicou.
Segundo Spinelli, a abstenção registrada no primeiro turno de 2026 pode ter sido influenciada por um cenário de desgaste político e descrença institucional.
“A nossa abstinência recente nessa última eleição, agora de 4 de outubro, foi relativamente alta.
Isso talvez tenha sido estimulado por essas crises que vêm aí, por exemplo, do caso do Vorcaro a questão do envolvimento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional nesses episódios”, avaliou.
O professor afirma que, diante de crises e conflitos envolvendo instituições, parte da população pode desenvolver a percepção de que a participação eleitoral não é capaz de produzir mudanças.
“Isso gera, por parte da população, de certas camadas da população, um certo sentimento de descrença, de que não vale a pena participar, porque o sistema não muda. Então, isso gera um certo sentimento de descrença nas instituições”, afirmou.
Além da relação de confiança com a política, a abstenção também está ligada às condições concretas que dificultam a participação eleitoral, segundo o professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais da UFRN e comentarista político Daniel Gonçalves de Menezes.
Para ele, o percentual registrado no Rio Grande do Norte permanece dentro de um patamar historicamente observado nos pleitos eleitorais.
“É uma abstenção que fica historicamente estabelecida num patamar que é recorrente nos pleitos eleitorais. Não é uma abstenção elevada se a gente comparar com os anos anteriores, com as eleições anteriores”, analisou.
Daniel destaca que fatores do cotidiano, como trabalho aos domingos, mudanças de cidade e dificuldades de deslocamento, interferem diretamente na decisão de comparecer às urnas.
“O que faz com que o eleitor vote são questões cotidianas mesmo. A gente tem especificidades com relação ao fato de que algumas pessoas hoje trabalham no domingo, e há elementos relacionados à mudança de cidade, e aí o voto se torna mais complexo para que a pessoa chegue até a urna”, explicou.
Segundo o professor, a ausência eleitoral também está relacionada a desigualdades sociais e não deve ser interpretada como falta de consciência política.
“Isso não tem a ver com politização maior ou menor. Tem relação com as dificuldades de classe, locomoção, trabalhar aos domingos, impossibilidade de ficar na fila. O elemento é mais socioeconômico do que propriamente moral ou intelectual”, destacou.
Segundo turno pode aumentar participação
Na avaliação de Spinelli, a tendência é que a abstenção diminua no segundo turno, devido ao maior envolvimento das campanhas e à percepção dos eleitores sobre a importância da escolha.
“Eu acredito que no segundo turno os partidos, sobretudo os partidos que estão concorrendo à Presidência da República, vão se empenhar muito mais, porque é a última chance. Então vai haver um empenho maior, uma tentativa de envolver mais certos segmentos da população e estimular a participação”, afirmou.
O professor também avalia que temas diretamente ligados à vida cotidiana podem estimular a volta de eleitores que não participaram da primeira votação.
“Questões relativas ao custo de vida, relativas à saúde pública, à educação, à segurança. Esses temas todos que envolvem a vida, o dia a dia das pessoas. Então a minha percepção nesse momento é que essa abstinência vai se reduzir. Sem deixar de existir, a abstinência vai se reduzir”, concluiu.





























