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As eleições estaduais de 1986 produziram um dos capítulos mais emocionantes da política do Rio Grande do Norte. De um lado estava João Faustino Ferreira Neto (PFL), apoiado pelo então governador José Agripino Maia, pela maioria dos prefeitos potiguares e por uma estrutura política que o colocava como favorito. Do outro, Geraldo Melo (PMDB), que começou a campanha desacreditado, percorreu o interior e venceu por apenas 14.071 votos.
O pleito, realizado em 15 de novembro, ocorreu em meio ao processo de redemocratização do país e à ascensão nacional do PMDB, impulsionada pelo Plano Cruzado. No Rio Grande do Norte, os eleitores escolheram governador, vice-governador, dois senadores, oito deputados federais e 24 deputados estaduais.
Relatos de pesquisas da época apontam que João Faustino chegou a reunir cerca de 62% das intenções de voto, enquanto Geraldo Melo aparecia com apenas 2% ou 3%. Além de liderar as pesquisas, o candidato do PFL contava com o apoio da maioria dos prefeitos. A vitória parecia encaminhada, mas a campanha tomou outro rumo.
Geraldo ganhou força à medida que ampliava sua presença nos municípios. Com uma oratória marcante e forte aproximação com o eleitor, transformou uma candidatura desacreditada em uma onda política que surpreendeu até lideranças experientes.
Nas urnas, Geraldo Melo e o vice Garibaldi Alves obtiveram 464.559 votos (50,11%). João Faustino, que teve Antônio Florêncio como vice, recebeu 450.488 votos (48,60%). A diferença de pouco mais de 14 mil votos tornou a disputa uma das mais apertadas da história do estado.
A vitória marcou o retorno do grupo liderado por Aluízio Alves ao Executivo estadual. Geraldo tomou posse em março de 1987 e governou o Rio Grande do Norte até 1991.
Senadores eleitos pela chapa derrotada
Um dos fatos mais curiosos daquela eleição foi que, embora Geraldo Melo tenha sido eleito governador, nenhum dos candidatos ao Senado de sua coligação conseguiu vencer.
As duas vagas ficaram com a Aliança Popular (PDS/PFL/PTB), justamente a chapa derrotada para o Executivo. José Agripino Maia (PFL) foi o mais votado, com 426.869 votos (25,24%), seguido por Lavoisier Maia (PDS), com 408.510 votos (24,16%).
Pela Aliança Democrática (PMDB/PCB/PCdoB), Martins Filho terminou em terceiro lugar, com 395.449 votos (23,38%), e Wanderley Mariz ficou em quarto, com 393.754 (23,28%). A diferença entre os quatro primeiros evidenciou o equilíbrio do eleitorado também na disputa pelo Senado.
“A marca dessa campanha é que, normalmente, o governador e os senadores que o acompanham se elegem juntos, ou pelo menos um dos senadores. Naquela eleição, o governador ganhou sem nenhum dos senadores, e os dois senadores, eu e Lavoisier, ganhamos com a chapa que perdeu a eleição de governador”, afirmou o ex-senador José Agripino ao Diário do RN.
Para disputar o Senado, José Agripino deixou o Governo do Estado antes do fim do mandato. O vice-governador Radir Pereira assumiu interinamente o Executivo até a posse de Geraldo Melo.
No Legislativo, o PMDB conquistou quatro das oito cadeiras do Rio Grande do Norte na Câmara dos Deputados, contra três do PFL e uma do PDS. Wilma Maia foi a deputada federal mais votada, seguida por Henrique Eduardo Alves.
Na Assembleia Legislativa, o PMDB também conquistou a maior bancada, com dez das 24 cadeiras, seguido pelo PFL, com nove, e pelo PDS, com cinco. Laíre Rosado foi o deputado estadual mais votado, à frente de Valério Mesquita e Carlos Eduardo Alves, em uma legislatura que revelou diversos nomes que marcariam a política potiguar nas décadas seguintes.
“O homem chamado Geraldo Melo”
Reeleito deputado federal naquele mesmo ano, Henrique Eduardo Alves acompanhou de perto a campanha de Geraldo. Mais do que um aliado, tornou-se testemunha da transformação de uma candidatura improvável em uma vitória histórica.
Segundo Henrique, o avanço de Geraldo não foi produzido apenas pela estrutura partidária ou pelas lideranças que o apoiavam, mas principalmente pelo desempenho pessoal do candidato.
“Foi uma campanha em que a vitória foi praticamente feita por ele. Não foi liderança, não foi partido. Foi o homem chamado Geraldo Melo, o seu talento para convencer e a sua palavra para emocionar”, afirmou, em entrevista ao Diário do RN.
Henrique recorda que sua própria campanha para a Câmara estava em situação confortável, o que lhe permitia acompanhar Geraldo em viagens pelo estado. “Eu não ficava preocupado com a minha eleição, que era tranquila. Ficava ao lado dele, encantado com o que ele produzia, com a maneira como falava e emocionava”, relatou.
“Novos ventos, novos tempos”
A identidade da campanha foi construída com elementos que atravessaram o tempo. O slogan “Novos ventos, novos tempos” sintetizava a proposta de mudança defendida por Geraldo Melo e acabou se tornando uma das marcas daquele pleito.
Ao lado dele, o jingle iniciado pelos versos “Sopra o vento forte no Rio Grande do Norte…” reforçou a identificação da candidatura com o eleitor e permanece, décadas depois, como uma das músicas eleitorais mais marcantes da história do estado.
“A música do candidato é o que gera a identificação com o eleitor, e Geraldo conseguiu eternizar muito bem isso. A música de Geraldo se tornou imortal”, resumiu Henrique.
O tamborete que virou símbolo
Outro símbolo nasceu de forma improvisada durante uma passagem por Macau. Henrique conta que acompanhava Geraldo em uma agenda que começou com poucas pessoas, mas ganhou público durante o percurso pela zona rural.
“Era pouca gente no começo. Depois, a multidão foi aumentando. Geraldo era pequenininho, e quem estava atrás já não conseguia vê-lo”, recordou.
Foi então que Henrique avistou um pequeno tamborete e pediu que o entregassem ao candidato.
“Ninguém entendeu, mas pegaram o tamborete e deram a ele. Geraldo subiu, começou a falar e todo mundo conseguiu vê-lo e ouvi-lo. A partir daí, o tamborete virou símbolo. Onde Geraldo chegava, havia um tamborete para ele subir e falar à multidão”, contou.
A imagem de Geraldo discursando sobre o pequeno banco acabou incorporada à campanha e ao próprio personagem político. Para Henrique, o adversário João Faustino era respeitado, tinha trajetória ligada à educação e não despertava rejeição pessoal. A diferença estaria na capacidade de Geraldo de ultrapassar o respeito e produzir uma conexão emocional.
“João Faustino era um homem respeitado, de bom coração, um homem da educação, que não tinha inimigos. Eu mesmo era admirador dele. Mas Geraldo encantava. João tinha o respeito, e Geraldo fazia além. Era o respeito e o encanto”, avaliou.
“Criava o contraste e emocionava”

Henrique também guarda na memória um comício realizado na Avenida Deodoro, em Natal, com a presença de Ulysses Guimarães. Durante o discurso, Geraldo pediu um minuto de silêncio e conseguiu fazer a multidão permanecer completamente calada. Em seguida, pediu um minuto de aplausos.
“Doutor Ulysses ficou surpreso. De repente, houve um silêncio absoluto. Depois, Geraldo pediu um minuto de aplausos. Ele fazia essas coisas, criava o contraste e emocionava”, relembrou Henrique, com a voz embargada.
“Eu fui um apaixonado por Geraldo. É difícil aparecer de novo alguém perto do que ele fazia”, completou.
A campanha de 1986 entrou para a história não apenas pela diferença mínima nas urnas, mas pela virada construída com presença, palavra, música e símbolos que atravessaram gerações. Geraldo Melo, que morreu em 2022, aos 86 anos, ainda seria senador da República (1995-2002) e vice-presidente do Senado (1995-1997).




























