
A ideia de que é preciso escolher uma profissão ainda muito jovem e segui-la até a aposentadoria já não representa a realidade de muitas brasileiras. A transição de carreira é uma tendência crescente no mercado de trabalho, impulsionada pela busca por propósito, equilíbrio e desenvolvimento pessoal. Estudos indicam que sete em cada dez mulheres maduras, acima dos 50 anos, estão em transição de carreira ou consideram mudar de profissão, em um movimento de ressignificação da própria trajetória.
Entre os principais motivos estão a vontade de alinhar o trabalho a valores pessoais, a necessidade de conciliar vida profissional e familiar e o desejo de viver um “segundo ato” após os 40 ou 50 anos. Também pesam fatores como ambientes corporativos hostis, falta de reconhecimento, sobrecarga e impactos na saúde mental. O medo da instabilidade financeira e o preconceito etário ainda são obstáculos, mas muitas encontram na maturidade a experiência e a resiliência necessárias para recomeçar.
Foi assim com a psicóloga Maria Beatriz Lago, 36 anos. Formada inicialmente em Engenharia Química em 2013, ela permaneceu na área por três anos, com foco na carreira acadêmica. Mas a inquietação já a acompanhava desde a graduação.
“Já no curso, eu não me sentia identificada com aquela área. Sabia que tinha algo a mais que eu buscava. Sempre gostei muito de ler, de questionar problemas sociais e filosóficos, e isso dentro da engenharia fica difícil”, conta.
Em 2015, durante o mestrado em Engenharia Sanitária, Beatriz tomou a decisão que mudaria sua vida profissional. No ano seguinte, ingressou no curso de Psicologia, área em que se formou há cinco anos e onde encontrou identificação. “Trabalhando como engenheira, eu percebia que eu buscava muito mais entender o outro do que consertar as máquinas”, relembra.
A mudança, segundo ela, não foi simples. Exigiu retorno à universidade, reorganização de planos e, sobretudo, apoio. “Eu tive muito suporte familiar, de amigos, pessoas que estiveram ao meu lado durante esse processo. Nem sempre é possível fazer essa mudança, existem várias realidades”, reconhece.
Para Beatriz, a transição vai além da troca de profissão. Trata-se de sentido. “Nunca é tarde para mudar, mesmo que seja dentro da mesma profissão. Isso diz de algo mais profundo do ser, que é o propósito, fazer aquilo que te preenche e que te faz despertar todos os dias sentindo que deu o seu melhor”, afirma.
Ela observa que muitas pessoas são vistas como más profissionais quando, na verdade, apenas não estão no lugar certo. “Existem perfis diferentes para trabalhos diferentes. Se o trabalho ocupa grande parte do nosso dia, é muito importante buscar aquilo que nos traz satisfação”, ressalta.
No caso das mulheres, a decisão costuma envolver desafios adicionais. “Para nós, essa mudança é bem mais difícil, porque muitas vezes precisamos de uma rede de apoio, especialmente quando se tem filhos. É preciso repensar o compartilhamento de tarefas e criar políticas públicas que incentivem as mulheres a buscar o seu propósito, assim como aconteceu comigo”, conclui.
Um recomeço que nasce do movimento e do propósito de unir forças femininas

Se na juventude a dúvida profissional pode gerar inquietação, na maturidade o recomeço costuma exigir ainda mais coragem. É nesse contexto que a história de Josenira Pereira Pinheiro Silva, conhecida como Lela, se conecta à de tantas outras mulheres que decidiram transformar a própria trajetória.
Aos 57 anos, viúva, ela é criadora do grupo “Geração Saúde”, fundado há oito anos na zona Norte de Natal, onde ensina dança a mulheres da terceira idade. As aulas acontecem no ginásio Nélio Dias, de segunda, quarta e sexta-feira, das 6h às 7h.

Antes de se dedicar à dança, Lela trabalhou durante cinco anos como auxiliar em uma creche. Foi um período de aprendizado e cuidado, mas ainda distante do que hoje considera seu verdadeiro propósito.
A dança entrou em sua vida como resposta à dor. “Quando eu comecei a dançar foi quando eu adoeci da depressão. Foi nesse momento que eu vi que nunca é tarde para a gente se libertar dessas coisas da vida, principalmente nós mulheres”, afirma.
O primeiro passo veio com incentivo da mãe e de uma vizinha, que a convidou para caminhar em uma praça e, discretamente, levou uma caixa de som. “Ela ligou o som e eu disse que não ia dançar, porque ainda estava saindo da depressão. Mas ela insistiu. Comecei a dançar e foram chegando outras mulheres. E foi assim que tudo começou”, relembra.
Antes de criar o próprio grupo, Lela também deu aulas em uma academia para mulheres mais jovens. Aos poucos, foi convidada a ministrar atividades em postos de saúde nos conjuntos Santarém e Gramoré, no bairro Potengi, sempre com foco nas mulheres mais velhas. “Meu foco mesmo foi a terceira idade. As histórias delas são lindas. Tudo o que eu passava me fortalecia mais ainda”, destaca.
Hoje, o Geração Saúde reúne cerca de 60 alunas. Para ela, não se trata apenas de dança. “Meu grupo não é só um grupo de dança. Eu levo elas para hospitais, casas de idosos, eventos. A gente passa energia para quem precisa sentir que existe força para continuar”, diz.
Viúva há quase quatro meses, após 47 anos de casamento, ela conta que o apoio do grupo foi essencial para enfrentar o luto. “Ele me apoiava muito, me levava para os eventos. Quando eu voltei, elas me chamaram e disseram: ‘Professora, aqui a senhora tem nosso amor’. Foi isso que me manteve em pé”, emociona-se.
Lela também é mãe atípica e afirma que buscou na dança força para si e para o filho. “Eu fiz por mim e por ele. A dança liberta da depressão, da ansiedade, do medo, da menopausa. Só falta a gente querer sair de casa e enfrentar”, reforça.
Quando uma aluna conta que recebeu alta médica ou conseguiu reduzir medicamentos após se envolver com as aulas, ela celebra. “É muito bom quando elas dizem que o médico perguntou o que mudou, e elas respondem que foi a dança”, completa.