
O caso do adolescente de 13 anos que apareceu vestindo uma fantasia associada ao regime nazista durante um baile de formatura, em Mossoró, no Oeste potiguar, chamou a atenção do país e levantou uma série de reflexões que vão além da esfera policial. As imagens, registradas durante a festa e compartilhadas nas redes sociais, provocaram indignação, mobilizaram autoridades e reacenderam o debate sobre intolerância, responsabilidade familiar e o uso consciente da internet por crianças e adolescentes.
O episódio ocorreu no último fim de semana, durante um baile de formatura do curso de Medicina da Facene. Fotos e vídeos mostram o adolescente usando um uniforme inspirado na Wehrmacht, o exército criado por Adolf Hitler, além de reproduzir gestos ligados à ideologia nazista. A divulgação inicial foi feita pelo Blog do Barreto e, em poucas horas, o conteúdo se espalhou pelas redes, despertando questionamentos sobre os limites entre fantasia e apologia a um regime marcado por violência, perseguições e milhões de mortes.
Com a repercussão, o Ministério Público do Rio Grande do Norte confirmou a abertura de um procedimento extrajudicial, conduzido pela 10ª Promotoria de Justiça de Mossoró, para reunir informações, identificar os envolvidos e analisar as circunstâncias do caso; e destacou que a apuração ocorre em segredo de justiça, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Polícia Civil também instaurou investigação por meio da Delegacia Especializada de Atendimento ao Adolescente (DEA), que segue realizando diligências.
Diante da exposição, o adolescente publicou um vídeo pedindo desculpas. Na gravação, afirmou não ter tido a intenção de fazer apologia ao nazismo, reconheceu o erro e disse não ter imaginado a dimensão que o caso tomaria. Ele também pediu uma nova chance e declarou contar com o apoio da família. Após a repercussão, o perfil do garoto em uma rede social foi apagado. Antes disso, o espaço trazia a frase em alemão “Ein Volk, ein Reich, ein Führer”, um dos slogans mais conhecidos do regime nazista.
Além do pedido de desculpas, apurações jornalísticas levantaram informações sobre o contexto familiar do adolescente. Segundo o Blog do Barreto, há registros de comentários de familiares elogiando o uniforme utilizado e de publicações antigas que indicariam estímulo a ideias de cunho extremista. As informações apontam ainda que familiares teriam facilitado a troca de roupa durante o evento e incentivado registros em fotos e vídeos, o que ampliou o debate sobre a responsabilidade dos adultos na orientação ética de crianças e adolescentes.
Para além da investigação e das possíveis consequências legais, o caso chama a atenção para os impactos emocionais e sociais desse tipo de exposição na adolescência. A psicóloga Débora Sampaio, especialista no atendimento a crianças e adolescentes, explica que essa é uma fase marcada por intensas transformações. “Aos 13 anos, o adolescente ainda está em pleno desenvolvimento emocional, cognitivo e moral. As áreas do cérebro responsáveis por julgamento crítico, empatia e avaliação das consequências ainda não estão amadurecidas”, afirma.
Segundo a especialista, comportamentos inadequados podem surgir por diferentes motivações.
“Muitas vezes, atitudes assim aparecem por imitação, provocação, desejo de chamar atenção, para chocar ou por busca de pertencimento a grupos, especialmente quando símbolos extremistas circulam na internet de forma banalizada ou romantizada”, explica. Débora destaca que muitos adolescentes não compreendem plenamente o peso histórico e humano de símbolos como o nazismo. “Isso não diminui a gravidade do ato, mas ajuda a entender o contexto em que ele acontece.”
A psicóloga também ressalta o papel da família e do meio social. “A família é uma referência fundamental na formação de valores, limites e noções éticas, especialmente na infância. Na adolescência, porém, os grupos passam a exercer forte influência, porque o jovem busca aceitação, reconhecimento e identidade fora do núcleo familiar”, observa. De acordo com ela, esse desejo de pertencimento pode levar o adolescente a reproduzir comportamentos inadequados como forma de se sentir aceito.
Outro ponto destacado por Débora Sampaio é o impacto da exposição pública. “A exposição intensa pode gerar efeitos profundos e duradouros. O adolescente está em fase de construção da identidade, da autoestima e do senso de pertencimento social”, alerta. Entre as possíveis consequências estão sentimentos de vergonha excessiva, ansiedade, isolamento e estigmatização.
A especialista também chama atenção para as chamadas pegadas digitais. “O que um adolescente publica na internet não desaparece. Esses registros podem ser recuperados e gerar consequências reais no futuro, inclusive em ambientes acadêmicos, profissionais e sociais”, afirma. Por isso, reforça a importância de orientação constante sobre responsabilidade digital.
Para Débora, é fundamental que a resposta social ao caso seja equilibrada. “É essencial diferenciar responsabilização de destruição. O adolescente precisa responder pelos seus atos, mas também precisa ser orientado, acompanhado e educado para compreender a gravidade do que fez e seguir em um processo de amadurecimento”, conclui.