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“PRECISAMOS PROVAR O DOBRO DA COMPETÊNCIA PARA SERMOS OUVIDAS”

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No Rio Grande do Norte, onde a história insiste em colocar mulheres na linha de frente, o nome de Zenaide Maia (PSD) se ergue como continuidade e consequência. Do sítio em Jardim de Piranhas ao Senado Federal, a única senadora potiguar carrega no mandato não apenas a representatividade institucional, mas uma trajetória marcada por origem simples, vocação para o cuidado e compromisso com as causas coletivas. No mês dedicado às mulheres, sua história é também um retrato da força feminina que atravessa o sertão, ocupa espaços e ressignifica o poder.

A narrativa de Zenaide começa longe dos gabinetes de Brasília. Começa no sítio, em Jardim de Piranhas, no coração do Seridó, onde a vida ensinou cedo o valor da resistência. Filha de um agricultor e de uma costureira, cresceu em uma casa cheia, de 16 filhos, e também repleta de princípios. “Mesmo com muitas dificuldades, meus pais nunca abriram mão da nossa educação”, relembra. Ali, entre o trabalho árduo e os sonhos possíveis, nasceu a mulher que mais tarde entenderia o cuidado como missão.

Foi esse impulso que a levou à medicina. Tornou-se infectologista por vocação, movida pelo desejo profundo de salvar vidas. Durante três décadas, exerceu a profissão com orgulho, percorrendo ambulatórios e hospitais, cuidando de gente. Mas, com o tempo, a médica percebeu os limites do atendimento individual.

“Na política, como secretária de saúde, deputada e agora senadora, eu entendi que as decisões no Congresso e as leis podem curar feridas sociais de cidades e estados inteiros. Entrei na política para ampliar esse cuidado: a política, para mim, é a medicina em larga escala”, disse.

Ao falar de inspiração, a garra do povo do Seridó e o exemplo da própria família foram as primeiras referências. Mas há também uma herança feminina que pesa e impulsiona. O Rio Grande do Norte foi o estado do primeiro voto feminino e da primeira prefeita da América Latina.

Alzira Soriano, Celina Guimarães, Julia Alves Barbosa Cavalcante, Joanna Cacilda Bessa, Maria do Céu Fernandes são algumas das pioneiras potiguares. “Saber que venho de uma terra de mulheres que quebraram barreiras me deu coragem”, diz.

Hoje, sua inspiração se renova no cotidiano das mulheres brasileiras: aquelas que trabalham, estudam, cuidam da casa e ainda encontram forças para lutar por direitos. “É isso que me move: garantir recursos para hospitais, proteção para crianças e dignidade para as famílias”, explica a senadora.

Ser mulher na política, no entanto, não é caminho sem pedras. Zenaide fala sobre os obstáculos.

O maior deles, segundo ela, ainda é o espaço. O machismo, segundo ela, nem sempre aparece de maneira explícita.

“Evoluímos muito, mas o lugar de poder ainda é muito distante da nossa realidade demográfica. A política ainda é um ambiente pensado por homens e para homens. Muitas vezes, precisamos provar o dobro da competência para sermos ouvidas. Além disso, enfrentamos o desafio do machismo estrutural. O preconceito nem sempre vem de forma direta; ele vem na interrupção da nossa fala ou na dúvida sobre nossa capacidade de liderança”, explica, acrescentando que o machismo reproduzido entre as próprias mulheres existe, o que torna a união um exercício permanente de conscientização.

É nesse contexto que ela enxerga o feminismo não como rótulo, mas como instrumento de justiça. Para Zenaide, o movimento foi fundamental para revelar a importância das mulheres em todas as esferas da sociedade.

“Para mim, o movimento é a busca por garantias básicas. O ideal seria chegarmos a um ponto onde não precisássemos de cotas, mas hoje elas são fundamentais. O feminismo é o que sustenta a necessidade de termos Defensorias da Mulher, leis de proteção como a Maria da Penha, e Delegacias Especializadas. É entender que a nossa segurança e nossa voz precisam de políticas públicas específicas”, frisa.

Enquanto mulher e política, Zenaide se sente acolhida pelo feminismo, um acolhimento que também exige responsabilidade. Ela sabe que ocupa um lugar de fala e de escuta.

“Ser uma mulher na política é ser uma porta-voz. Eu me sinto parte desse movimento quando luto por mais saúde, por creches e por segurança para as mulheres. O feminismo nos une na dor das injustiças, mas principalmente na esperança de um país onde o gênero não seja um limitador de sonhos”, reflete.

Natália Bonavides: “Não basta ser mulher para nos representar”

“Existem parlamentares que defendem pautas que atacam a nossa existência e pioram nossas vidas” – Foto: Reprodução

Em segundo mandato de deputada federal, a trajetória de Natália Bonavides (PT) na política nasce antes dos palanques e das urnas. Começa na universidade, no envolvimento com causas sociais e na compreensão da política como prática cotidiana de transformação da realidade.

“Na época da universidade comecei a me envolver mais com temas políticos. E quando falo de política, é no seu sentido mais amplo, muito mais do que estar dentro das disputas eleitorais e institucionais”, relembra.

Foi nesse período que participou do movimento estudantil, integrou o Centro Acadêmico do Curso de Direito da UFRN, atuou em experiências de educação popular inspiradas nas obras de Paulo Freire e se aproximou de organizações populares, como o MST, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas e o Movimento da População em Situação de Rua, se tornando advogada popular.

A filiação ao Partido dos Trabalhadores veio em 2012, motivada pela identificação com as referências políticas encontradas nessas lutas. A ideia de disputar eleições, no entanto, não fazia parte dos planos iniciais. “Me filiei porque descobri que nas lutas com as quais me envolvia, as referências de luta eram do PT. No começo, não tinha intenção de ser candidata, nunca foi um sonho. Mas quando me aprofundei no debate sobre a participação das mulheres na política, decidi atuar ativamente para mudar o cenário”, afirma.

Ao falar dos desafios de ser mulher na política, a deputada aponta a violência política de gênero como uma das principais barreiras. Para ela, são usadas estratégias claras de exclusão.

“Um dos pilares da violência política de gênero é dizer que esse não é um espaço nosso, que a gente não deveria estar ali. Imagine, sou uma política mulher, jovem e nordestina”, avalia.

Ela também reflete e faz um alerta sobre representatividade. “Não tenho nenhuma ilusão de que basta ser mulher para nos representar. Hoje existem parlamentares que defendem pautas conservadoras e neoliberais que, na verdade, atacam a nossa existência e pioram nossas vidas”, afirma.

Para Natália Bonavides, o feminismo é central nesse debate: “O feminismo é um movimento que luta pela igualdade de direitos entre mulheres e homens, mas, acima de tudo, pela vida, dignidade e liberdade das mulheres. Graças à luta das mulheres, conquistamos direitos fundamentais, como votar, estudar, trabalhar e ocupar espaços de poder”, coloca, alertando sobre o aumento de casos de violência e feminismo no Brasil.

Nesse contexto, ela vê com preocupação o avanço de discursos conservadores e, por isso, a presença feminina no Parlamento é estratégica.

“Por isso, o feminismo é também uma luta por justiça e sobrevivência. Ele impulsiona políticas públicas, fortalece leis de proteção e enfrenta uma cultura que ainda naturaliza a violência contra as mulheres. Mais do que nunca, precisamos de mais mulheres feministas na política. Somos nós que vivenciamos essas desigualdades e que podemos transformá-las em políticas públicas que salvam vidas”, afirma Natália.

Para esta reportagem, o Diário do RN buscou o posicionamento das três parlamentares da bancada federal potiguar. A deputada federal Carla Dickson não respondeu aos questionamentos.


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