
Na semana em que o país celebra as conquistas femininas, dados mostram que a realidade nem sempre é igual para todos. No Rio Grande do Norte, o racismo contra mulheres segue como uma das faces mais duras da desigualdade social. Estrutural e muitas vezes silencioso, ele se manifesta nos indicadores de violência, renda, saúde e representatividade política.
De acordo com dados das Nações Unidas no Brasil, mulheres negras nordestinas têm quatro vezes mais chances de serem assassinadas do que mulheres brancas. No Rio Grande do Norte, esse índice é ainda mais alarmante, chegando a ser oito vezes maior. Os números revelam uma vulnerabilidade que atravessa gerações e expõe o peso combinado do racismo e do machismo.
Entre janeiro e novembro de 2025, o estado registrou aumento de 10,2% nos casos de feminicídio, com 21 mortes, superando o total contabilizado em 2024. Levantamentos indicam um cenário ainda mais preocupante, com o Rio Grande do Norte figurando entre as maiores taxas de feminicídio do Nordeste, segundo o estudo “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
No mercado de trabalho, a desigualdade também se impõe. No RN, mulheres negras recebem, em média, 33% a menos que mulheres brancas. Elas ocupam com maior frequência postos informais e funções com menor proteção social. A exclusão se estende aos espaços de poder: embora representem parcela significativa do eleitorado, ainda são minoria em cargos de decisão.
A violência institucional é outro ponto crítico. Mulheres negras figuram entre as principais vítimas de violência obstétrica e relatam atendimentos marcados por negligência, longas esperas e menor oferta de anestesia durante o parto. Casos de discriminação em serviços públicos e privados também compõem o cenário de racismo estrutural no estado.
Paradoxalmente, o aumento das denúncias pode ser interpretado como sinal de maior conscientização. Registros de violações racistas no Rio Grande do Norte mais que dobraram entre 2023 e 2024, acompanhando uma alta de 101,5% na região Nordeste. Contudo, especialistas apontam que, embora haja atualmente uma elevação dos casos, há mais informação e incentivo para que vítimas busquem seus direitos.
Diante desse contexto, movimentos de mulheres negras têm intensificado ações de mobilização e formação política. Integrante da organização Kilombo, da Rede de Mulheres Negras do Nordeste e do Comitê Impulsor de Mulheres Negras Potiguares, Dalvaci Neves afirma que março é um período simbólico de fortalecimento da luta.
“As mulheres negras estão organizadas com o intuito de acabar com o racismo e com o machismo. O ‘março de lutas’ vem dar visibilidade à violência contra a mulher negra”, destaca.
Segundo ela, o racismo estrutural empurra mulheres negras para os piores indicadores sociais.
“Os dados mostram que estamos nas piores rendas, exercemos trabalhos mais precários e somos minoria nos quadros de gestão pública e privada. Assim como na política e no mercado de trabalho, também na questão da violência somos as mais atingidas”, afirma.
A pauta da educação também aparece como prioridade. Dalvaci defende o cumprimento das leis que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, não apenas em datas comemorativas. “A educação precisa enfrentar o racismo no dia a dia e promover igualdade de gênero e raça. Esperamos que o novo Plano Nacional de Educação traga diretrizes concretas nesse sentido”, pontua.
Outro aspecto ressaltado é o enfrentamento ao padrão de embranquecimento imposto historicamente às mulheres negras. “Durante muito tempo fomos pressionadas a mudar nossa aparência para sermos aceitas. Queremos que cada mulher possa assumir sua identidade e ser respeitada por sua competência”, diz.
Encerrando a programação do mês, o movimento promove, no próximo dia 19, às 14h, um curso de letramento racial, com aula inaugural online. O evento contará com a participação de Nayara Leite, representante do Instituto Odara, da Mulher Negra, sediado em Salvador, e coordenadora da Rede de Mulheres Negras do Nordeste.
De acordo com Dalvaci, mais do que um encontro virtual, a atividade simboliza um esforço coletivo para transformar estatísticas em mudança concreta. Em meio aos desafios, mulheres negras potiguares seguem organizadas, reafirmando que igualdade não é concessão, é direito.
Políticas públicas no RN
No campo das políticas públicas, o Rio Grande do Norte sancionou recentemente a Lei nº 11.938, de iniciativa da Secretaria de Estado das Mulheres, da Juventude, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (Semjidh), que institui a Política Estadual de Prevenção e Enfrentamento ao Racismo Institucional. Para as ativistas, o avanço é importante, mas precisa sair do papel e alcançar a vida cotidiana.