
A relação de Maria Liz com a música começou antes mesmo dos palcos e estúdios. Ainda na infância, em Natal, ela cresceu em um ambiente onde os discos escolhidos pelos pais faziam parte do cotidiano da casa. Antes de se tornar cantora e compositora, no entanto, sua principal forma de expressão era a escrita. A afinidade com as palavras surgiu cedo e acabou se tornando uma das bases de sua produção autoral. “Eu sempre tive um pé na poesia e brincava muito com essa coisa das palavras e rimas. É tanto que até na minha própria fala eu costumo rimar bastante”, conta a artista.
O passo decisivo para a música veio em 2018, quando ela recuperou um violão que havia recebido na infância. Ao consertar o instrumento, começou a experimentar notas e a unir melodia e palavras, dando origem às primeiras canções. “Consertei um violão velho que eu tinha ganhado quando era criança e, a partir disso, comecei a entoar algumas notas musicais. Fui brincando com as palavras junto às notas e então surgiram as canções”, relembra.
Com o tempo, o hábito de compor se tornou constante. Hoje, a artista acumula mais de 150 músicas autorais, muitas delas escritas em inglês. Esse repertório extenso revela não apenas disciplina criativa, mas também um universo musical que dialoga com diferentes influências.
Segundo ela, o processo criativo sempre foi intuitivo e ligado à forma como percebe o mundo.
“Ela nasce de mim de uma forma corriqueira, como nascem as palavras, como a gente aprende a fazer as coisas funcionais do dia a dia”, diz.
As inspirações de Maria Liz nascem, principalmente, das vivências cotidianas. Relações humanas, afetos e experiências pessoais aparecem com frequência em suas letras, marcadas por metáforas e sensibilidade. Musicalmente, a artista transita entre o folk e a MPB, dialogando com referências como Stevie Nicks, Adrianne Lenker, Patti Smith e Joan Baez, além de nomes da música brasileira como Angela Ro Ro, Maria Bethânia, Marina Lima e Gal Costa.
Embora a música já fizesse parte de sua rotina criativa desde 2018, foi apenas alguns anos depois que Maria Liz começou a apresentar suas composições ao público. Em 2023, a cantora passou a subir aos palcos de Natal com apresentações em formato acústico, levando repertório autoral para pequenos shows na cidade.
O mesmo ano marcou sua participação no Festival Natal em Natal, realizado no Largo Ruy Pereira, após ser selecionada por meio de edital municipal. A experiência representou um dos primeiros momentos de contato mais amplo com o público.
A presença de palco também ganhou novos acordes ao longo da trajetória. Em 2024, a artista realizou seu primeiro show com banda, intitulado “FUROR”, ampliando a dimensão sonora de suas composições e explorando novas possibilidades de arranjos.
Outra vertente importante de sua atuação musical é o projeto alternativo “Peixe Boi Também é Sereia”, no qual atua como vocalista. A proposta explora sonoridades experimentais e performances que dialogam com uma estética mais performática.
Apesar das diferentes experiências musicais, foi em sua carreira solo que Maria Liz deu um dos passos mais marcantes até agora. Em 2025, lançou o single “Flerte Tropical”, seu primeiro trabalho oficial nas plataformas digitais.
A canção marca o início de uma nova fase artística e apresenta ao público uma síntese das influências que permeiam sua produção musical. Com uma sonoridade envolvente e produção intimista, a faixa mistura elementos do pop com uma atmosfera leve e tropical.
Segundo a cantora, a música nasceu de forma simples, inicialmente estruturada apenas com voz, violão, letra e melodia. O processo ganhou uma nova dimensão quando a composição chegou ao estúdio. “Enviei a música para o produtor Eduardo Taufic e, a partir daí, a gente começou a construir a produção musical. No estúdio, ela ganhou riffs de guitarra, sintetizadores e bateria”, explica.
O resultado é uma faixa de estrutura melódica direta, com refrão repetitivo e de fácil assimilação, característica que reforça o clima leve da música. “Flerte Tropical” também funciona como um convite ao verão, aos encontros passageiros e às paisagens afetivas que atravessam o imaginário da artista.
Para Maria Liz, o lançamento do single representa mais do que um marco na carreira, é também a abertura de novos caminhos criativos. Nos próximos passos, a cantora pretende explorar outras vertentes sonoras, incluindo influências do folk e de estilos que dialogam com sua fase atual.
Trajetória e desafios
Ao olhar para a própria trajetória, a artista diz que houve um momento decisivo em que percebeu que a música não era apenas um interesse, mas um caminho de vida. “Teve um momento em que eu me vi diante de várias composições e percebi que gostava de escutar o que eu mesma produzia. Quando você gosta de escutar o que faz, isso significa muito. Foi aí que entendi que não me via fazendo outra coisa”, afirma.
Essa certeza, no entanto, não elimina os desafios de seguir uma carreira autoral, especialmente dentro do cenário independente. Para Maria Liz, o contexto local ainda apresenta obstáculos, principalmente quando se trata de abrir espaço para novos artistas e repertórios autorais. “Viver no cenário potiguar é um tanto quanto difícil, principalmente para quem trabalha com música autoral”, observa.
Ainda assim, ela acredita que o cenário cultural do estado tem se transformado e que cada vez mais artistas locais conseguem projetar seus trabalhos para além das fronteiras regionais. A cantora, inclusive, faz questão de questionar uma frase famosa do folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, segundo a qual Natal não consagraria nem desconsagraria ninguém. “Eu discordo. Hoje estamos na era da desobediência”, diz, com convicção.
Para ela, a nova geração de artistas tem mostrado que é possível construir caminhos próprios, mesmo diante das dificuldades. “Estamos vendo vários artistas se consagrando vindos da nossa terra. Eu acredito que é possível sim fazer história e viver da nossa arte”, completa.
No mês em que o protagonismo feminino ganha ainda mais destaque, a trajetória de Maria Liz revela a força de uma artista que encontrou na sensibilidade, na poesia e na persistência as ferramentas para construir sua própria identidade musical.
Entre violão, versos e experimentações sonoras, ela segue escrevendo a própria história, uma canção de cada vez. E, como diz a própria cantora, com o desejo de que sua arte ultrapasse fronteiras.
“Eu espero que a minha arte possa ser semeada por Natal e pelo Brasil afora”, conclui, otimista.