AULÃO DO MEC REÚNE 3 MIL ESTUDANTES NO RN E REFORÇA PREPARAÇÃO PARA ENEM

A poucos dias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, cerca de 3 mil estudantes participaram, nesta quinta-feira (5), de um aulão promovido pelo Ministério da Educação (MEC), no Rio Grande do Norte. A iniciativa integra uma série de encontros realizados pelo país para reforçar a preparação dos candidatos e estimular o ingresso no ensino superior. O estado potiguar foi o primeiro a integrar estudantes da rede estadual à programação nacional, que tem concentrado atividades nas instituições federais de ensino.
De acordo com o secretário-executivo do MEC, Rodolfo Cabral, o Enem 2026 registra aproximadamente 5 milhões de inscritos no Brasil, sendo mais de 113 mil no Rio Grande do Norte. O representante do ministério destacou um crescimento de cerca de 46% nas inscrições em relação a 2022, resultado que, segundo ele, demonstra a retomada do interesse dos brasileiros pela educação superior.
“Isso mostra um país que voltou a acreditar na educação. Estudantes que voltaram a ter esperança de melhorar de vida por meio da educação”, afirmou Rodolfo.
O secretário destacou ainda as possibilidades oferecidas pelo exame, como o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Segundo ele, os aulões buscam reunir estudantes de diferentes redes de ensino para fortalecer a preparação e apresentar os caminhos disponíveis após a prova.
Para a secretária estadual de Educação, Socorro Batista, a participação do Rio Grande do Norte representa um reconhecimento ao trabalho desenvolvido pela rede pública. Ela ressaltou que a mobilização envolveu principalmente escolas de Natal e municípios próximos, considerando as condições de deslocamento.
“Entendemos como um momento muito especial para que possamos contribuir, não só na aprendizagem, mas, sobretudo, na motivação, no crescimento da confiança e na convicção que esses estudantes precisam ter de que o acesso à universidade é o caminho realmente possível para que as classes populares possam ascender do ponto de vista social, econômico e político”, declarou.
Entre os participantes estava Nidia Cristina, de 18 anos, estudante da Escola Estadual Ferreira Itajubá, em Neópolis, Natal. Prestes a realizar o Enem pela primeira vez, ela contou que a preparação tem sido acompanhada de ansiedade, especialmente pela expectativa de conquistar uma vaga em Fisioterapia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Estudante do ensino integral, Nidia passa o dia na escola e ainda reserva parte da noite para revisar conteúdos. Apesar da pressão, destacou a importância de compartilhar a experiência com outros jovens.
“Está todo mundo no mesmo barco. Eu não estou sozinha. Fico tranquila porque sei que outros adolescentes, outros jovens estão no mesmo caminho que o meu”, afirmou.
A experiência da estudante representa a realidade de milhares de jovens que enxergam no Enem uma oportunidade de transformação social. Entretanto, para muitos candidatos, a preparação também exige enfrentar obstáculos financeiros e desigualdades educacionais. Nesse cenário, iniciativas de educação popular desempenham um papel importante na democratização do ensino superior.
Cursinhos gratuitos democratizam ensino
Criado em 2021, o Cursinho Popular Dona Militana surgiu da iniciativa de jovens militantes da Democracia Socialista (DS), corrente política do Partido dos Trabalhadores (PT), com o objetivo de ampliar as oportunidades educacionais para a juventude da classe trabalhadora. Atualmente, o projeto oferece preparação gratuita para o Enem em Natal e São Gonçalo do Amarante.
A iniciativa contou, entre 2021 e 2024, com apoio dos mandatos da deputada estadual Isolda Dantas e da vereadora Brisa Bracchi. Desde 2025, também integra a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), política do MEC que oferece apoio técnico, pedagógico e financeiro.
Em entrevista ao Diário do RN, a coordenação do cursinho, formada por Júlia Almeida, Eloísa Arruda e Margarida Dias, explicou que o projeto nasceu da necessidade de enfrentar as desigualdades no acesso à universidade pública.
“O Dona Militana nasce e se fortalece como uma iniciativa de educação popular, comprometida com a democratização do conhecimento e com a defesa da educação como um direito, e não como um privilégio”, destacou a coordenação.
Ao longo de cinco anos, o cursinho contabiliza quase 50 aprovações em universidades públicas.
Atualmente, quatro educadores do projeto são ex-alunos que retornaram para compartilhar conhecimentos com novos estudantes.
Apesar dos resultados, a permanência estudantil continua sendo um desafio. Muitos alunos precisam conciliar trabalho, estudos e responsabilidades familiares, o que pode comprometer a frequência.
“É importante compreender que a ausência de um estudante nem sempre representa falta de interesse. Muitas vezes, representa uma realidade social que coloca a sobrevivência imediata em conflito com o direito de estudar”, explicaram.
Inspirado nos princípios de Paulo Freire, o projeto também desenvolve atividades sobre cidadania, desigualdades sociais, questões raciais e direitos das mulheres, defendendo uma formação que ultrapasse os conteúdos cobrados no Enem.
Educação e consciência racial transformam vidas no Nordeste
Em Salvador, na Bahia, o Instituto Beneficente Cultural Steve Biko desenvolve, há 34 anos, uma experiência de educação popular voltada à formação de estudantes negros. Fundado em 1992 por jovens militantes do movimento negro, é reconhecido como o primeiro quilombo educacional do Brasil.
Em entrevista ao Diário do RN, a professora e diretora de Projetos do instituto, Jucy Silva, explicou que a proposta da instituição ultrapassa a preparação para o vestibular, articulando formação acadêmica, consciência racial e participação política.
“A Biko, quando surge, pensa que não seria suficiente colocar uma pessoa negra na universidade. Essa pessoa precisava conhecer a sua história, a história da África, a condição do negro no Brasil”, afirmou.
Um dos pilares dessa formação é a disciplina Cidadania e Consciência Negra (CCN), presente desde a fundação do instituto. Segundo Jucy, a proposta é preparar estudantes para ocupar espaços historicamente marcados pela exclusão racial.
A instituição também inspirou outras iniciativas de educação popular e contribuiu para a formação de estudantes que hoje ocupam posições estratégicas e atuam na promoção da igualdade racial.
“A gente sempre defendeu que o estudante que passa pela Biko também tem que pensar em quem não entrou na universidade, tem que pensar nessa formação de rede”, destacou.
Entre as perspectivas de expansão está a inauguração da sede própria no Campo Grande, em Salvador, que deverá ampliar as atividades do pré-vestibular e fortalecer novos projetos.
Assim como o Dona Militana, o Steve Biko demonstra que democratizar o ensino superior exige mais do que preparar estudantes para uma prova. As duas experiências associam educação, pertencimento e formação crítica, ampliando as possibilidades de acesso à universidade para populações historicamente excluídas.



