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VOLTA ÀS AULAS REFORÇA ALERTA SOBRE SAÚDE EMOCIONAL DE ADOLESCENTES

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O fim das férias e a retomada do calendário escolar marcam um período de transição para milhões de estudantes em todo o país. Para adolescentes do Ensino Médio, especialmente aqueles que estão iniciando ou concluindo essa etapa, a volta às aulas costuma vir acompanhada de expectativas elevadas, cobranças e incertezas que extrapolam o conteúdo pedagógico. Nesse contexto, a saúde emocional dos jovens exige atenção da equipe e escolar e dos familiares.

A adaptação à rotina escolar, a pressão por desempenho e as decisões relacionadas ao futuro acadêmico e profissional tornam esse período particularmente sensível. Ansiedade, alterações de comportamento e dificuldades de concentração aparecem com frequência e, muitas vezes, passam despercebidas nos primeiros meses do ano letivo. Especialistas alertam que o acolhimento inicial pode ser decisivo para reduzir impactos emocionais ao longo do ano.

“É muito comum o aluno apresentar manifestações comportamentais de insegurança nessa etapa. Cabe aos professores e à equipe pedagógica estabelecer processos de acolhimento para que ele chegue ao espaço escolar com um maior sentimento de segurança e consiga se desenvolver da melhor maneira possível”, afirma Hilton Gomes, psicólogo responsável pelo acompanhamento da turma da terceira série do Ensino Médio do Colégio Ágora, na zona Sul de Natal.

Segundo ele, a forma como o estudante é recebido no início do ano influencia diretamente sua relação com a escola. Ambientes que favorecem a escuta e o diálogo tendem a reduzir a tensão, fortalecer vínculos e facilitar a adaptação, especialmente entre alunos que enfrentam a pressão de exames decisivos, como o Enem.

Na tentativa de minimizar esse impacto, algumas escolas têm apostado em estratégias simples, mas eficazes. No Colégio Ágora, alunos da turma de Pré-Enem participaram de uma roda de conversa nos primeiros dias de aula. A iniciativa buscou criar um espaço de fala para que os estudantes compartilhassem expectativas, receios e experiências acumuladas ao longo das férias.

“Nessa roda de conversa, a gente buscou fornecer um espaço seguro para que eles pudessem compartilhar suas experiências, anseios e reduzir a tensão, de forma que o corpo docente pudesse compreender como cada um estava se sentindo”, relata o psicólogo.

Além do contato direto com os alunos, a escola também promoveu um encontro com as famílias, com o objetivo de apresentar a nova rotina e alinhar expectativas para o ano letivo. A proposta é fortalecer a rede de apoio ao estudante e facilitar a identificação de possíveis sinais de alerta fora do ambiente escolar.

Para a diretora do Colégio Ágora, Monique Guedes, o cuidado com o aspecto emocional reflete diretamente no desenvolvimento dos alunos. “Por isso, é um dos nossos pilares manter a escola como um ambiente seguro, de diálogo e apoio emocional para que o aluno consiga aprender, se relacionar e enfrentar as demandas do ano letivo com mais confiança”, afirma.

A preocupação encontra respaldo em dados nacionais. Pesquisa realizada pelo Instituto Ayrton Senna, em um estado de cada região do país, aponta que 79% dos alunos entrevistados apresentam ao menos um sintoma relacionado à depressão ou à ansiedade. Do total, 20,4% afirmam se sentir bastante ou totalmente infelizes ou deprimidos, enquanto 38,9% relatam sensação intensa de esgotamento ou pressão. A dificuldade para dormir devido a preocupações aparece em 33,9% das respostas.

O levantamento também revela impactos significativos na autoestima e na capacidade de concentração. Cerca de 22,1% dos estudantes dizem ter perdido bastante ou totalmente a confiança em si mesmos, e 22% afirmam se sentir incapazes de superar dificuldades. Outros 7,9% relatam não conseguir se concentrar nas tarefas escolares, o que pode comprometer o aprendizado e o rendimento ao longo do ano.

Diante desse cenário, especialistas defendem que o cuidado com a saúde mental não se restrinja a ações pontuais no início do calendário escolar. O acompanhamento psicológico e emocional precisa ser contínuo. “Particularmente, eu tenho um horário semanal para entrar em sala para debater um pouco sobre autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. A gente fala um pouco sobre bases neurológicas da aprendizagem para compreender como se aprende melhor, e depois seguimos toda uma programação para que esse aluno tenha assistência o ano inteiro para lidar com quaisquer questões que surjam, como dificuldade de aprendizado, integração social, entre outros”, explica Hilton Gomes.

O envolvimento da família é apontado como parte essencial desse processo. Especialistas recomendam que pais e responsáveis estejam atentos a mudanças de comportamento, incentivem hábitos saudáveis, como a prática de atividades físicas e momentos de lazer, e mantenham canais abertos de diálogo. “É fundamental que os pais exerçam uma escuta ativa e validem os sentimentos desses jovens. Quando família e escola caminham juntas, conseguimos identificar sinais de alerta mais cedo e oferecer o suporte necessário para que o aluno enfrente os desafios do ano letivo de forma mais saudável”, conclui o psicólogo.


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