
Alvo da Operação Mederi, que apura um esquema de fraudes na área da saúde em cinco municípios do Rio Grande do Norte, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, se recusou a fornecer à Polícia Federal as senhas dos aparelhos eletrônicos apreendidos em sua residência durante diligência realizada no mês de janeiro. A negativa foi registrada formalmente no auto de apreensão.
De acordo com documentos obtidos pelo Blog do Dina, do jornalista Dinarte Assunção, os agentes solicitaram o desbloqueio de dois iPhones e de um MacBook Air recolhidos no local, mas o prefeito não autorizou o acesso aos dispositivos e se recusou a fornecer as senhas para desbloqueio. A postura contrasta com o discurso público adotado por Allyson após a deflagração da operação.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o prefeito afirmou que não tinha nada a esconder e que estava colaborando com a Polícia Federal. Disse ainda que apenas um telefone celular, um notebook e dois HDs haviam sido apreendidos. O auto da PF, no entanto, aponta um volume maior de materiais: três aparelhos telefônicos, incluindo dois iPhones e um celular da marca Positivo, sem acesso à internet e classificado como “descartável”, além de um MacBook Air, dois HDs externos, um pen drive e um cartão de memória.
Nos bastidores da política, a recusa em fornecer as senhas à Polícia Federal é interpretada como um gesto suspeito, por levantar a hipótese de que os aparelhos possam conter conversas comprometedoras por texto ou áudio, além de registros de ligações com outros investigados na operação.
A Operação Mederi foi deflagrada pela Polícia Federal em parceria com a Controladoria-Geral da União para investigar irregularidades em contratos de fornecimento de insumos para a rede pública de saúde. As apurações indicam indícios de superfaturamento, não entrega de materiais e falhas na execução contratual.
Segundo a PF, empresas sediadas no Rio Grande do Norte atuavam junto a administrações municipais de diferentes regiões do país. Ao todo, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão, com recolhimento de dinheiro em espécie, veículos, celulares, computadores, mídias digitais e documentos.
No caso de Mossoró, os investigadores passaram a tratar Allyson Bezerra como figura central no esquema sob suspeita. Além da residência do prefeito, a Polícia Federal também cumpriu mandado em um apartamento localizado em Ponta Negra, na zona Sul de Natal, apontado como vinculado a ele. Embora não tenham sido apreendidos materiais no endereço, o relatório da diligência registra a presença de objetos pessoais e indícios de uso recente do imóvel pela família do gestor.
IMPRENSA NACIONAL: Conta em nome de laranja
De acordo com apuração do jornal “O Estado de São Paulo” (Estadão), a Polícia Federal afirma ter identificado movimentações bancárias em conta de uma estudante menor de idade como peça-chave para ocultar o dinheiro do esquema. Segundo a investigação, a conta, em nome da filha dos empresários ligados à Dismed e à Drogaria Mais Saúde, foi usada para armazenar e redistribuir recursos de origem ilícita. Apenas em um ano, o esquema teria movimentado R$ 13,5 milhões em contratos públicos, dos quais parte teria sido lavada por meio dessa conta “laranja”.
De acordo com a PF, a conta da menor, sem compatibilidade com sua capacidade econômica, recebeu R$ 427 mil em um ano após contratos firmados com o município de Serra do Mel, o que caracteriza, para os investigadores, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. As apurações alcançam municípios como Mossoró, Serra do Mel, Paraú, São Miguel, José da Penha e Tibau, onde empresas teriam simulado concorrência e distribuído propinas.

Medo de usar tornozeleira
Enquanto a operação avançava no campo policial, a movimentação no Judiciário também ganhou destaque. A defesa de Allyson entrou com pedido emergencial no Tribunal Regional Federal da 5ª Região para saber se havia solicitação da Polícia Federal para aplicação de medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
O desembargador federal Rogério Fialho Moreira, no entanto, negou o pedido. Na decisão, o magistrado afirmou que o investigado não tem direito de ser informado previamente sobre eventuais medidas cautelares e que esse tipo de antecipação poderia comprometer a eficácia das investigações.
“O Código de Processo Penal não assegura ao investigado o direito de saber previamente se e quais medidas cautelares serão decretadas contra ele”, escreveu o desembargador. Segundo Fialho, a lei permite que essas medidas sejam impostas sem a oitiva da parte contrária quando há risco de ineficácia da diligência.
Allyson Bezerra apressa lançamento de pré-candidatura ao Governo do Estado

Mesmo sendo alvo da Operação Mederi, Allyson Bezerra lançou, no último sábado (07), sua pré-candidatura ao Governo do Rio Grande do Norte. O anúncio foi feito durante evento político, na capital potiguar, que reuniu lideranças políticas de diversos partidos, entre elas o vice-governador Walter Alves (MDB) e a prefeita de Pau dos Ferros, Marianna Almeida que já havia sido conta para vaga de vice na chapa de Cadu Xavier, apoiada pela governadora Fátima Bezerra.
Durante coletiva, o prefeito afirmou que seu projeto político tem foco em soluções para o estado.
“Esse é um projeto para falar de solução, para falar de entrega e para falar de sonho. A gente não aguenta mais apenas a classe política discutindo o problema. A gente quer discutir solução para o Rio Grande do Norte”, declarou.
Na mesma ocasião, Allyson explicou que, por exigência legal do calendário eleitoral, terá de deixar o cargo para disputar o pleito, mas afirmou que isso não representará abandono da cidade.
“Nós teremos que, sim, renunciar à Prefeitura Municipal de Mossoró. Mas não será uma renúncia de trabalho nem da cidade. Será apenas uma renúncia formal do ponto de vista do cargo”, disse.