
Embora o calendário do ano civil tenha início em 1º de janeiro, para muita gente ele só parece ganhar força depois do Carnaval. A frase, repetida com naturalidade em conversas informais e até em ambientes profissionais, diz mais sobre comportamento e emoção do que sobre datas oficiais, de acordo com especialistas.
O mês de janeiro carrega uma atmosfera de transição. É mês de férias escolares, de viagens em família, de temperaturas elevadas e de uma rotina que ainda pulsa em ritmo desacelerado. Muitas empresas operam com equipes reduzidas, projetos estruturais são adiados e decisões estratégicas aguardam um momento considerado mais oportuno. Soma-se a isso o fato de o Carnaval, uma das maiores festas populares do mundo, ter data móvel, podendo ocorrer em fevereiro ou março. Forma-se, assim, um período de expectativa para as festividades carnavalescas.
Do ponto de vista econômico e político, o movimento também tende a ser mais lento. Setores como comércio e marketing concentram campanhas e investimentos nas vendas de verão e na própria folia. No serviço público, é comum que o ritmo pleno de votações e atividades só se consolide após o Carnaval. Esse cenário reforça a sensação de que o país ainda está aquecendo os motores.
Mas a explicação mais profunda talvez esteja na esfera subjetiva. O ciclo festivo iniciado no Natal e atravessado pelo Réveillon encontra no Carnaval um encerramento simbólico. Para muitos, trata-se da última oportunidade de extravasar antes de mergulhar nas responsabilidades que o novo ano promete. Planos de iniciar a academia, retomar os estudos, mudar de emprego ou reorganizar a vida financeira ficam suspensos, à espera do pós-folia.
A psicóloga Maria Beatriz Lago observa que a expressão revela um movimento quase ritualizado.
“De fato, estamos no Brasil, o país do carnaval. Após as festas de final de ano, férias escolares, iniciamos um novo ciclo na primeira marcha, prontos para um novo freio quando da chegada das festividades carnavalescas”, afirma.
Segundo ela, o adiamento frequente das metas pode funcionar como uma fuga disfarçada. “Os planos de começar uma academia, uma dieta, se candidatar a um emprego, estudar para um concurso vão ficando para um depois que parece só chegar após a quarta-feira de cinzas”, diz.
A realidade prática, porém, não acompanha essa pausa simbólica. “O ano, porém, já começou: o IPVA e o IPTU já chegaram, o corpo já cobra os exageros das festividades, os prazos e datas permanecem intactos”, lembra a psicóloga. A diferença entre o calendário interno e o externo pode gerar frustração, sobretudo quando as expectativas criadas no fim do ano não se concretizam nas primeiras semanas.
Para Maria Beatriz, no entanto, nem tudo se resume à procrastinação. Há também uma necessidade legítima de reorganização emocional. “Alguns planos, de fato, exigem maior cuidado, atenção, foco e continuidade. Isso quer dizer que, para que se dê início às metas de ano novo, há a necessidade de, inicialmente, realizar uma curadoria daquilo que é realmente factível e pelo que vale a pena o empenho”, explica.
Ao mencionar o filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, conhecido por suas reflexões sobre a sociedade do cansaço, a psicóloga reforça a importância do repouso. Para ela, sair do modo automático e do estado permanente de urgência é condição para escolhas mais conscientes.
“Balancear lazer e responsabilidades é saudável e necessário; no entanto, dedicar uma maior energia a determinados objetivos requer uma continuidade que, frequentemente, só é possível após a grande ilusão do carnaval”, afirma.
A cultura popular, ela lembra, também traduz essa tensão entre trabalho e celebração. “A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho para fazer a fantasia, como diria a grande compositor Tom Jobim”, diz. A frase sintetiza o imaginário coletivo de esforço prolongado recompensado por um breve período de encantamento.
No fim das contas, a pergunta talvez não seja quando o ano começa, mas como cada indivíduo decide atravessá-lo. Entre a pausa necessária e a procrastinação confortável, existe uma linha tênue. “Mente sã, corpo são, então, antes de partir para o fazer, cuide do ser. Viva os momentos que permitem união, relaxamento, leveza para, então, realizar o esforço necessário para conquistar as metas que merecem sair do papel”, conclui a psicóloga.