
Há estreias que representam apenas mais uma apresentação. Outras simbolizam um novo capítulo de uma história construída ao longo de décadas. Nesta semana, o ator potiguar José Neto Barbosa desembarca em São Paulo para apresentar “Um Depoimento Real”, espetáculo da S.E.M. Cia. de Teatro selecionado para a MIACENA – Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos. A montagem, dirigida pela argentina Monina Bonelli, chega à capital paulista levando um tema delicado: a violência contra crianças narrada a partir do universo da imaginação infantil.
Mas, antes de cruzar fronteiras, a história de José Neto começou entre o Agreste e o litoral potiguar.
Nascido em Natal, ele passou a infância entre Santo Antônio e Barra do Cunhaú, em Canguaretama. Foi nesse cenário que surgiram as primeiras referências que, anos depois, moldariam sua identidade artística.
“Nasci em Natal, mas fui criado entre Santo Antônio do Salto da Onça e Barra do Cunhaú. Minhas raízes estão muito ligadas a esses dois lugares, entre as memórias do Agreste e o horizonte do litoral potiguar”, contou.
Filho de uma família de vaqueiros, chegou a participar de vaquejadas quando criança, mas admite, com bom humor, que não levava muito jeito. O que realmente mudou sua vida aconteceu diante de um arraial.
“Venho de uma família de vaqueiros e, ainda criança, cheguei a correr vaquejada, mas era péssimo vaqueiro. Mas foi também nessa época que, ao assistir a um festival de quadrilhas juninas em Santo Antônio, algo despertou em mim”, lembrou.
O brilho dos figurinos, a música e a capacidade de emocionar o público despertaram nele um desejo que nunca mais desapareceu.
“Ali nasceu em mim a vontade de também estar em cena e provocar essa emoção nas pessoas”, afirmou.
Pouco tempo depois, a família mudou-se para Natal. Aos 11 anos, José Neto pisaria em um palco pela primeira vez, experiência que consolidaria o sonho iniciado nas festas juninas.
“Meu primeiro contato com o palco aconteceu ainda criança, na Escola Nossa Senhora do Carmo, em Nova Cruz. Ia ter uma encenação da Paixão de Cristo e eu pedi para participar. Acabaram me colocando para fazer Jesus e lembro que fiquei muito empolgado com tudo aquilo”, recordou.
Embora a estreia tenha acontecido ainda na infância, ele considera que a carreira começou oficialmente em 2002, quando ingressou em um curso de televisão e cinema. O teatro, porém, rapidamente tomou outro rumo.
“Comecei interessado justamente em televisão e cinema, mas logo depois me apaixonei pelo teatro. Comecei a fazer outros cursos, oficinas, participar de espetáculos e fui ficando. O teatro acabou tomando conta de tudo e se tornou a base da minha carreira”, disse.
Desde então, estudar tornou-se parte inseparável da profissão. Entre cursos, oficinas e intercâmbios, José acumula mais de 45 formações.
“Hoje tenho mais de 45 formações realizadas com profissionais nacionais e internacionais. Acho que o ator precisa continuar estudando a vida inteira”, pontuou.
Titina: amiga, professora e incentivadora


Entre as grandes referências estão nomes como Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira, Cleyde Yáconis e Vera Holtz. No Rio Grande do Norte, porém, nenhuma influência foi tão marcante quanto Titina Medeiros.
A relação começou antes mesmo de ela ser sua professora.
“Ela assistiu ao ensaio geral e, quando terminou, me chamou num cantinho do palco e disse: ‘Netinho, me prometa que você nunca vai deixar de fazer teatro’. Eu prometi e nunca esqueci”, recordou.
Mais tarde, Titina tornou-se professora de José Neto no Centro Experimental. As aulas eram frequentemente prolongadas em conversas sobre arte e vida, acompanhadas de um “caldinho de camarão na praça de alimentação de um shopping da capital”.
“Hoje, vivendo o luto pela partida dela (Titina), seguir fazendo teatro também é uma forma de honrar essa promessa”, afirmou.
A carreira construída ao longo de 24 anos jamais teve como objetivo definitivo migrar para o eixo Rio-São Paulo. O desejo era outro: conhecer o Brasil através do teatro.
“Desde que comecei a fazer teatro, eu tinha uma imagem muito específica na cabeça: sonhava em viajar de avião com minhas malas e meu cenário para apresentar em outras cidades”, contou.
O sonho começou a ganhar forma em 2014, durante um festival em Curitiba. Na ocasião, a atriz Ítala Nandi assistiu ao espetáculo e publicou uma crítica chamando José Neto de “ator extraordinário”, reconhecimento que ajudou a ampliar a circulação de seu trabalho pelo país.
Mesmo assim, ele nunca cogitou abandonar o Rio Grande do Norte.
“Sempre me interessou muito mais conhecer o Brasil profundo através do teatro”, explicou.
Hoje, já percorreu mais de 16 estados brasileiros, passando pelas cinco regiões do país, levando espetáculos tanto para grandes capitais quanto para cidades onde o acesso às artes cênicas ainda é limitado.
“Eu consegui construir essa trajetória continuando no Rio Grande do Norte, sendo um ator potiguar e fazendo o meu trabalho partir daqui para encontrar o restante do país”, destacou.


Agora, essa caminhada ganha mais um capítulo com “Um Depoimento Real”. O espetáculo, inspirado em casos reais, aborda a violência contra crianças sob a perspectiva da imaginação infantil, propondo uma reflexão sobre escuta, afeto e redes de proteção.
A estreia nacional da peça acontece neste sábado (15), às 17h e 20h, no FIESP Mezanino, na Avenida Paulista, dentro da programação da MIACENA 2026 – Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos. As apresentações são gratuitas.
Frio na barriga

Mesmo após mais de duas décadas de carreira, a ansiedade permanece intacta.
“Sinto, e muito. Acho que o dia em que eu deixar de sentir esse frio na barriga talvez seja o momento de repensar alguma coisa”, confessou.
A apresentação em São Paulo representa um marco importante para ele, porém, não altera uma característica que o acompanha desde o início.
“Tenho mais experiência, mais segurança e mais ferramentas como ator, mas aquele frio na barriga continua existindo. E eu gosto que continue”, comentou.
Ao final de cada espetáculo, porém, a ansiedade dá lugar ao momento que, para ele, resume o sentido da profissão.
“Faz a vida fazer sentido. O aplauso não é só um reconhecimento pelo que aconteceu no palco.
Para mim, é a confirmação de que houve um encontro, de que alguma coisa que eu fiz chegou até aquelas pessoas”, afirmou.
E é justamente nesse encontro, seja nos aplausos, em um abraço ou em uma conversa após o espetáculo, que José Neto encontra a resposta para seguir, há 24 anos, fazendo do teatro sua forma de existir.