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LEI MUNICIPAL RECONHECE E FORTALECE TRADIÇÃO DAS RENDEIRAS DE PONTA NEGRA

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“Foi um nó na garganta que finalmente se desfez em alívio e alegria.” É assim que a coordenadora da Associação Rendeiras da Vila de Ponta Negra, Maria Marhé, define o momento em que recebeu a notícia de que as rendeiras de bilro haviam sido reconhecidas oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Natal. Para ela, a conquista representa mais do que uma lei: simboliza a valorização de gerações de mulheres que fizeram da renda de bilro um dos maiores patrimônios culturais do Rio Grande do Norte.

“Este momento do reconhecimento das Rendeiras da Vila e do Ponto de Memória como Patrimônio Vivo Cultural Imaterial representa a coroação de uma caminhada coletiva, mas também a validação de cada gota de suor, de cada projeto escrito à mão e de cada conversa travada para proteger os nossos saberes ancestrais. Ao saber do reconhecimento foi um nó na garganta que finalmente se desfez em alívio e alegria”, afirmou.

Segundo Maria Marhé, a sanção da lei representa a confirmação de que a tradição da renda de bilro permanece viva graças às mulheres que, durante séculos, transformaram conhecimento, trabalho e resistência em identidade cultural.

“Esse reconhecimento é ver o tempo se curvar diante da força de mulheres que, durante séculos, sustentaram famílias e mantiveram viva uma identidade com o bater dos bilros. Como articuladora da cultura popular de tradição, a sensação foi de dever cumprido na salvaguarda; como eterna rendeira aprendiz, senti minhas mãos tremerem. Não é apenas um título burocrático: é a validação de que a nossa memória popular é sagrada, viva e inegociável”, disse.

O reconhecimento foi oficializado por meio de lei sancionada pelo prefeito Paulinho Freire, que declara patrimônio cultural imaterial as Rendeiras de Bilros da Vila de Ponta Negra, grupo responsável pela preservação de uma das mais tradicionais manifestações artesanais da capital potiguar.

A legislação também reconhece o Memorial das Rendeiras, localizado na Rua Vereador Manoel Coringa de Lemos, nº 484, como espaço cultural destinado à preservação da memória da atividade. O texto ainda prevê a inclusão do local no roteiro turístico oficial de Natal e determina que o Município realize os registros necessários para formalizar o reconhecimento patrimonial.

Para Maria Marhé, o reconhecimento também representa uma mudança na forma como a Vila de Ponta Negra passa a ser vista, valorizando um território muitas vezes associado apenas ao turismo ou aos problemas urbanos.

“Para as rendeiras e para a comunidade da Vila representa dignidade e visibilidade. A Vila de Ponta Negra, tantas vezes olhada apenas sob a ótica da violência, da especulação imobiliária e do turismo comercial, afirma-se agora como o coração pulsante da cultura tradicional da nossa cidade. Para as mestras rendeiras, é a certeza de que elas não são ‘passado’, mas o próprio presente e futuro da nossa identidade. Para a comunidade, o reconhecimento fortalece o sentimento de pertencimento, mostrando para os nossos jovens que o território onde pisam é solo sagrado de patrimônio, arte e sabedoria popular”, explicou.

Na avaliação da coordenadora, a conquista chega justamente quando a tradição enfrentava um dos momentos mais delicados de sua história, diante do envelhecimento das mestras e do risco de desaparecimento do ofício.

“Estávamos correndo contra o tempo diante do envelhecimento das nossas mestras e do risco real de silenciamento dos bilros. O reconhecimento chega como um escudo e uma ferramenta de luta. Ele nos dá fôlego institucional e respaldo para exigir políticas públicas permanentes de salvaguarda, garantindo que o saber não se perca com o tempo, mas ganhe novos espaços e incentivos para continuar florescendo”, ressaltou.

Ela acredita que o título também amplia o reconhecimento econômico e cultural do trabalho desenvolvido pelas artesãs.

“A renda de bilro deixa de ser vista como um mero artesanato de lembrancinha e passa a ser reconhecida como alta arte têxtil, patrimônio e design vivo. Isso agrega valor real ao produto das artesãs, gera sustentabilidade econômica justa e desperta a curiosidade de pesquisadores, estudantes, turistas e amantes do patrimônio que buscam experiências autênticas e históricas”, afirmou.

Trajetória construída entre os bilros
Dedicada à preservação da renda de bilro,, Maria Marhé conta que sua relação com a tradição nasceu da convivência diária com as mestras da Vila de Ponta Negra.

“A renda entrou na minha vida não apenas como uma técnica, mas como uma linguagem ancestral.

Minha relação com a arte de tradição e cultura popular se deu pelo encanto da observação e pela convivência afetuosa com as amigas mestras da Vila. Aprendi, e sigo aprendendo todos os dias, no ritmo do ‘fazer e refazer’, ouvindo as histórias entre o vai e vem dos bilros e observando o movimento ágil dos dedos de mulheres que transformaram a linha e o tempo em poesia. Sou uma eterna aprendiz diante da imensidão de saberes que cada mestra carrega”, recordou.

Ela afirma que sua atuação vai além da pesquisa e da gestão cultural, sendo resultado de uma construção coletiva.

Sua caminhada já soma 14 anos dedicados a essa causa. Maria gosta de dizer que não conta o tempo apenas em anos do calendário, mas no volume de afetos, de projetos conquistados, de encontros e ações promovidas para manter a almofada e os bilros vivos. “É uma entrega de vida com propósito”, concluiu.


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