Início » DA SALA DE AULA À REGÊNCIA: BANDA DE ESCOLA EM LAGOA AZUL FORMA MÚSICOS

DA SALA DE AULA À REGÊNCIA: BANDA DE ESCOLA EM LAGOA AZUL FORMA MÚSICOS

  • por
Compartilhe esse post

Quando Mateus Emanuel entrou na Banda Alceu, em 2017, ele tinha 12 anos e ainda estava no sexto ano da Escola Estadual Alceu Amoroso Lima, em Lagoa Azul, na Zona Norte de Natal.

Gostava de bateria e queria conhecer o universo da música. Começou tocando atabaque. Quase dez anos depois, aos 22, continua ligado ao projeto, mas agora em outra posição: é um dos maestros que ensinam os alunos mais novos.

“Passei seis anos como tocador e vou fazer agora, em dezembro, quatro anos como maestro”, conta Mateus. Para ele, a permanência na banda está relacionada menos a qualquer retorno financeiro e mais ao vínculo criado ao longo dos anos. “O que fez eu continuar na banda foi o amor mesmo. Por mais que a gente não ganhasse nada, mas o amor de querer participar, de querer estar presente, isso não tem preço.”

A trajetória de Mateus ajuda a explicar como funciona hoje a Banda Alceu e a Fanfarra dos Meninos (FDM). Embora tenham formações e dinâmicas próprias, os dois grupos estão ligados pelo mesmo processo de formação: os integrantes mais experientes ensinam os mais novos e, depois de deixar a escola, alguns continuam participando do projeto.

A história, porém, começou antes de a banda existir de fato. Em 2012, a escola recebeu instrumentos pelo programa federal Mais Educação, mas, até 2016, não havia um formador para preparar os ritmistas. A mudança veio em 2017, quando as então alunas Karol e Joana assumiram a regência e deram início à formação que colocou a banda nas apresentações.

Embora o Mais Educação ainda funcionasse em 2017 e 2018, a formação era conduzida pelas próprias estudantes. A principal contribuição do programa havia sido a disponibilização dos instrumentos iniciais. O modelo precisou ser reinventado pouco depois.

Com o fim do Mais Educação e do recurso destinado à contratação de um maestro, a escola perdeu a possibilidade de manter um formador remunerado. Em vez de encerrar a banda, a equipe gestora decidiu preparar os próprios alunos para assumir a condução do grupo.

“Esses alunos que têm mais experiência vêm formando os mais novos. E quando esse aluno com mais experiência chega ao nono ano e sai da escola, os outros já estão prontos para poder tomar a frente da banda”, explica Reinan Alessandro de França, atual diretor da escola.

Foi assim que a banda passou a funcionar também como uma espécie de cadeia de transmissão de conhecimento. Alunos aprendem a tocar, ganham experiência e, posteriormente, alguns passam a ensinar quem está chegando.

Foi esse processo de continuidade entre diferentes gerações que permitiu a reconstrução do grupo e fortaleceu a participação dos ex-alunos.

Entre os que permaneceram ligados ao projeto está Mateus. Ao longo da trajetória, ele aprendeu diferentes instrumentos e passou a criar, junto com outros músicos, os próprios toques da banda.

Segundo ele, o repertório atual reúne 22 toques criados pelos integrantes antigos.

“Você fica com um negócio na sua mente para você criar toques. Então você vai criando, vai encaixando instrumento por instrumento”, explica.

“Foi uma virada de chave, algo que mudou por completo minha vida”

Arthur Oliveira, de 16 anos, é um dos integrantes que passaram de alunos a formadores de novos músicos – Foto: Reprodução

Em 2025, a permanência dos ex-alunos ganhou uma nova estrutura com a criação da Fanfarra dos Meninos. A FDM reúne antigos integrantes e atua também na formação dos alunos que ainda estão na Banda Alceu. A ideia é que o conhecimento adquirido pelos veteranos continue circulando mesmo depois que eles deixem a escola.

Arthur Oliveira, de 16 anos, é também um dos integrantes que passaram de alunos a formadores.

Ele conheceu a banda por meio dos colegas e entrou depois de ser convidado por Mateus. Hoje, ajuda a ensinar os mais novos.

“Foi uma virada de chave, algo que mudou por completo minha vida. A sensação de participar de uma banda é única. A gente ganha uma nova família”, relata.

A nova geração já começa a experimentar esse mesmo vínculo. Isac Oliveira, de 16 anos, entrou em 2024, influenciado por amigos e pelo irmão mais velho. Começou no tarol e passou a tocar repique. Para ele, a banda também produziu mudanças fora da música.

“Eu era um aluno muito respondão, brincalhão, não ligava muito”, conta. Segundo Isac, a participação no projeto o ajudou a mudar o comportamento e a perder a vergonha de se expressar.

Paulo Juscyan, de 15 anos, teve o primeiro contato com a banda ao assistir a um desfile da Chegança, em 2022. Entrou no projeto em 2024. Ele diz que encontrou na atividade uma forma de lidar com momentos difíceis. “Estava quase entrando em depressão. E a banda me ajudou muito nisso.”

Nos meses de setembro, a experiência dos ensaios ganha as ruas. Neste ano, a Banda Alceu participou das atividades do 7 de Setembro na Praça Cívica, em Natal, um dos momentos destacados pelos próprios estudantes. Para Isac, representar a escola e participar do desfile foi uma experiência de “felicidade” e “honra”. A apresentação também marcou, diante do público, o resultado de um processo de formação que acontece durante todo o ano.

Os relatos dos estudantes ajudam a dimensionar o projeto para além das apresentações. Segundo Andrey, atualmente cerca de 70 pessoas participam da iniciativa, entre aproximadamente 50 alunos e 20 ex-alunos. O grupo mantém ensaios duas vezes por semana e participa de diferentes eventos culturais.

A manutenção, porém, não depende apenas dos instrumentos que deram origem ao projeto. Dos equipamentos antigos, segundo Andrey, 17 permanecem. Novos instrumentos foram comprados por ele, por famílias de alunos e também obtidos por meio de doações da comunidade. O professor estima que, somente para colocar a banda nas ruas em setembro, sejam gastos cerca de R$ 8 mil.

Para Reinan, a continuidade dos ex-alunos mudou também a dimensão do projeto. “Ele passa a ser um projeto social, que funciona dentro da própria comunidade”, afirma. No centro desse processo estão músicos que começaram como crianças ou adolescentes e hoje ensinam outros a tocar. Mateus resume a lógica que mantém a banda funcionando: “Você cria uma família dentro da banda. Você literalmente tem uma família lá. Por mais que não seja de sangue, eles viram seus irmãos.”


Compartilhe esse post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *