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PRODUTORA TRANSFORMA HERANÇA FAMILIAR EM REFERÊNCIA NO QUEIJO ARTESANAL NO RN

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uanto muitos jovens deixam o campo em busca de oportunidades nas cidades, a trajetória de Micarla Fernandes seguiu o caminho inverso. Nascida e criada na zona rural de São Pedro, no Agreste potiguar, ela se formou em Pedagogia, morou em Natal por alguns anos, mas decidiu retornar às origens. Hoje, é referência na produção de queijos artesanais no Rio Grande do Norte e conquistou reconhecimento nacional com o queijo maturado no café, premiado no maior concurso de queijos artesanais do país.

À frente da Fazenda Lima, Micarla encontrou no campo não apenas qualidade de vida, mas também uma forma de empreender valorizando a tradição familiar.

“Eu nasci e me criei no interior. Meus pais eram caseiros de fazendas e eu sempre vivi na zona rural. Quando casei e fui morar em Natal, essa ligação com o campo nunca deixou de existir. O que mais me motivou a voltar foi exatamente estar no lugar que eu amo e construir minha família perto das minhas raízes”, afirmou.

Ela conta que o retorno também representou uma reconexão com a história construída pelo pai, João da Silva, e pelo esposo, Rassio Henrique, que a incentivou a investir na produção de queijos.

Embora tenha crescido em uma família ligada à produção de leite, Micarla revela que não imaginava seguir esse caminho.

A produção de queijos surgiu inicialmente como uma alternativa para aumentar a renda da família, proposta apresentada pelo marido. No começo, ela resistiu à ideia, mas acabou descobrindo uma nova vocação.

“Hoje percebo que estou dando continuidade à tradição que herdei do meu pai. Ao mesmo tempo, consigo agregar valor ao leite e mostrar que é possível transformar uma atividade tão difícil quanto a pecuária leiteira em um negócio sustentável”, explicou.

Queijo maturado no café nasceu em evento do Sebrae

Foto: Reprodução

O produto que hoje se tornou símbolo da Fazenda Lima surgiu de maneira inesperada.
Durante um evento promovido pelo Sebrae voltado à cafeicultura, Micarla participava como expositora apresentando os queijos maturados que já produzia. Foi naquele momento que teve a ideia de unir duas cadeias produtivas do Rio Grande do Norte.

“Quando participei do evento, pensei em desenvolver um queijo com café. Mas eu não queria utilizar qualquer café. Foi quando conheci o Café Jaçanã, produzido aqui no Rio Grande do Norte, e começamos essa parceria”, contou.

O desenvolvimento do produto levou cerca de um ano.
“Passei um ano fazendo testes até chegar ao resultado que tenho hoje. Foi uma oportunidade que surgiu naquele evento e acabou dando origem ao Potiguar, o nosso queijo maturado no café”, disse.

Mais do que produzir, Micarla acredita que é preciso ensinar o consumidor a conhecer um tipo de queijo ainda pouco difundido no Nordeste.

Ao longo do ano, ela participa de feiras e faz questão de conduzir pessoalmente as degustações.

“É um produto diferente da cultura que temos aqui, que é o queijo coalho e o queijo manteiga.

Então faço um trabalho de apresentação, conto o processo de produção e conduzo a degustação para que as pessoas entendam o que estão consumindo”, explicou.

Segundo ela, a resistência diminuiu nos últimos anos.

“Hoje percebo que os consumidores já conhecem mais esse tipo de queijo. Quando a pessoa prova pela primeira vez, estranha um pouco, mas logo fica encantada com o sabor. É um trabalho de construção e de informação”, comentou.

Na Fazenda Lima, a inovação convive com receitas preservadas há gerações.

Enquanto investe em queijos maturados de diferentes estilos — como o maturado de 60 dias, o de seis meses, o queijo ao vinho e o queijo maturado no café —, Micarla mantém inalterada a receita da manteiga da terra aprendida com o pai. “Quando as pessoas provam a nossa manteiga da terra, muitas dizem que voltaram à infância. Elas lembram da casa da avó, da fazenda, do pai ou da mãe. É muito comum ver pessoas se emocionando porque o sabor desperta essa memória afetiva”, relatou.

Para ela, conservar a tradição é justamente permitir que ela dialogue com a inovação.

“A Fazenda Lima tem essa preocupação de preservar a tradição e, ao mesmo tempo, agregar valor por meio da inovação. O artesanal dá identidade ao produto e expressa o nosso território”, destacou.

Primeira mulher com queijaria artesanal registrada no RN
Micarla também abriu espaço para outras mulheres dentro da cadeia produtiva do queijo artesanal potiguar.

Ela é a primeira mulher do Rio Grande do Norte a possuir uma queijaria artesanal registrada em seu próprio nome.

Apesar dos avanços, acredita que ainda há desafios para que o trabalho feminino receba o devido reconhecimento.

“Na grande maioria das propriedades, quem beneficia o leite e faz o queijo é a mulher. Mas, historicamente, o reconhecimento sempre ficou com os homens. Ainda existem muitas barreiras para serem vencidas”, afirmou.

Segundo ela, conciliar os papéis de empresária, mãe, esposa e produtora rural exige equilíbrio diário.

“Não é fácil estar à frente do negócio, produzir, comercializar e administrar tudo ao mesmo tempo. A mulher ainda precisa conquistar mais visibilidade dentro desse segmento”, ressaltou.

Em julho deste ano, a Fazenda Lima conquistou reconhecimento nacional durante o 9º Prêmio Queijo Brasil, realizado em Blumenau (SC), considerado o maior concurso de queijos artesanais do país.

A queijaria integrou a comitiva organizada pelo Sebrae-RN e levou ao evento produtos desenvolvidos a partir da identidade do território potiguar.

Novidades para a Festa do Boi 2026
Na 64ª Festa do Boi, a Fazenda Lima apresentará uma nova identidade visual e os queijos ganharão nomes próprios, reforçando a ligação com o Rio Grande do Norte.

Segundo Micarla, a mudança também reflete o aperfeiçoamento técnico conquistado após sua formação como Mestre Queijeira em Minas Gerais.

“Os nossos queijos não são apenas um alimento. Eles proporcionam uma experiência. No sabor, no aroma e na textura, expressam o clima, o ambiente, a alimentação das vacas e a mão de quem produz. Cada queijo conta a história do nosso território”, explicou.

Além dos queijos maturados, o público encontrará no estande manteiga da terra, ricota e queijo coalho artesanal.

Para os jovens que ainda têm dúvidas entre permanecer na cidade ou voltar às origens, Micarla deixa um conselho baseado na própria experiência.

“Volte para o lugar que proporciona bem-estar e qualidade de vida. Com responsabilidade, conhecimento e visão, é possível gerar renda e prosperar”, concluiu.


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