
O mês de agosto é marcado pela campanha Agosto Dourado, dedicada à conscientização, proteção e incentivo ao aleitamento materno. Representada pela cor dourada, em referência ao “padrão ouro” de qualidade do leite humano, a mobilização reforça a recomendação de que os bebês sejam alimentados exclusivamente com leite materno até os seis meses de vida, mantendo a amamentação, junto à introdução alimentar, até os dois anos ou mais. A campanha também chama a atenção para a importância da doação de leite humano, um gesto capaz de salvar a vida de recém-nascidos internados e prematuros.
Para muitas mulheres, no entanto, a amamentação vai muito além da orientação médica. É um processo cercado por desafios físicos e emocionais, mas também de vínculo e afeto. A jornalista Heloísa Guimarães, de 37 anos, conhece bem essa realidade. Mãe de Apolo e Aurora, ela amamentou os dois filhos por quase uma década e descreve a experiência como uma das mais marcantes da maternidade.
Antes mesmo do nascimento do primeiro filho, Heloísa buscou informações sobre amamentação, mas descobriu que a prática é diferente de qualquer preparação.
“Quando eu engravidei de Apolo comecei a pesquisar muito sobre amamentação. Eu não tinha contato com esse universo e fui aprendendo aos poucos. Quando ele nasceu, eu estava superdisposta a amamentar, mas lembro que senti dor durante um mês inteiro. Além da dor física, existe uma dor emocional, porque você quer muito conseguir alimentar seu bebê e sabe o quanto aquilo é importante”, relatou.
Apesar das dificuldades iniciais, ela afirma que a experiência transformou sua relação com os filhos.
“Depois daquele primeiro mês, foi maravilhoso. Eu amamentei meu filho mais velho por cinco anos e meio e minha filha até os três anos e meio. Costumo dizer que passei quase dez anos amamentando. Foi uma experiência muito feliz. A amamentação é sinônimo de entrega, de vínculo. É uma coisa difícil de explicar, mas muito especial”, afirmou.
Além da amamentação, Heloísa também teve a oportunidade de doar leite materno. Embora a quantidade fosse pequena, ela descobriu que cada mililitro faz diferença para um bebê que precisa.
“Na época eu doei cerca de 10 mililitros para uma bebê prematura. Achei que era muito pouco, mas a família ficou extremamente feliz. Foi quando entendi que qualquer quantidade pode fazer diferença.
Aquele leite poderia ajudar a salvar uma vida”, contou.
Ela explica que nunca produziu leite em excesso por longos períodos, mas defende que mulheres que possuem produção excedente procurem os bancos de leite.
“Se você tem leite sobrando, doe. É uma responsabilidade social. É um alimento que pode ser desperdiçado ou pode alimentar um bebê que realmente precisa. Hoje existem programas que recolhem o leite na casa da doadora, então ficou muito mais fácil ajudar”, argumentou.
Na avaliação da jornalista, ainda falta divulgação sobre a importância da doação.
“Eu sinto falta de mais campanhas das maternidades, dos bancos de leite e das instituições públicas. As pessoas ainda não têm dimensão do quanto a amamentação e a doação representam um investimento em saúde pública”, disse.
Leite materno protege mãe e bebê
A enfermeira Veronica Feitosa, do Banco de Leite Humano da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC/UFRN-HU), explica que o Agosto Dourado busca justamente ampliar esse conhecimento entre gestantes e familiares.
Segundo ela, o leite humano reúne todos os nutrientes necessários para o bebê nos primeiros seis meses de vida, além de oferecer proteção imunológica e favorecer o desenvolvimento infantil.
“O leite humano é o único alimento completo para o recém-nascido até o sexto mês de vida. Ele oferece benefícios para a imunidade, para o desenvolvimento neurológico e motor da criança e também para a saúde da mãe. Por isso, é fundamental divulgar essas informações para toda a população”, afirmou.
Quem pode doar?
Nem toda mulher que amamenta pode ser doadora. Veronica explica que é necessário estar saudável, alimentar o próprio bebê e possuir produção excedente de leite.
“A doadora precisa estar amamentando seu bebê, ter leite excedente e não apresentar condições ou fazer uso de medicamentos que impeçam a doação. Existem situações em que a mulher pode amamentar o próprio filho, mas não pode doar para o banco de leite”, esclareceu.
O Banco de Leite Humano da MEJC não atua apenas no processamento do leite doado. A unidade acompanha mães desde os primeiros dias após o parto, oferecendo orientações sobre amamentação, correção da pega, tratamento de intercorrências como mastite e apoio durante toda a jornada da lactação.
Além disso, o serviço mantém o projeto Amigo do Peito, em parceria com o Corpo de Bombeiros, que realiza a coleta do leite diretamente na residência das doadoras.
“O Banco de Leite acompanha as mães desde o início da amamentação, orienta sobre dificuldades, atende casos de intercorrências e também realiza a coleta domiciliar do leite por meio da parceria com o Corpo de Bombeiros. É um suporte que permanece durante toda a fase de amamentação”, destacou Veronica.

Mais doadoras são necessárias
Coordenador do programa Amigo do Peito, o tenente Cleonicio, do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte, explica que o trabalho desenvolvido pela corporação contribui diretamente para reduzir a mortalidade infantil.
“O aleitamento materno oferece todos os nutrientes necessários para o bebê, fortalece a imunidade, melhora o desenvolvimento e reduz o risco de diversas doenças ao longo da vida. Por isso, incentivar a amamentação e a doação de leite é uma forma de salvar vidas”, afirmou.
Atualmente, cerca de 300 mães participam do programa como doadoras. Apesar disso, a quantidade ainda não atende à demanda dos bancos de leite do estado.
“Precisamos de mais mulheres doando leite para evitar o desabastecimento dos bancos de leite. Além disso, a população pode colaborar divulgando a importância da amamentação e doando frascos de vidro que serão utilizados para armazenar o leite humano”, concluiu o tenente.
A diminuição no número de doadoras afeta diretamente o atendimento aos recém-nascidos internados.
“Hoje processamos, em média, de 8 a 10 litros de leite por dia, quantidade suficiente apenas para abastecer a UTI neonatal da maternidade. Muitas vezes surgem outras demandas, mas não conseguimos atender nem mesmo a Unidade de Cuidados Intermediários Canguru porque não temos volume suficiente. Vivemos constantemente buscando novas doadoras, já que muitas encerram o período de amamentação e deixam de doar”, explicou a enfermeira Veronica Feitosa.

As mulheres interessadas em doar podem entrar em contato com o Banco de Leite através do telefone 3342-5800 e pelo WhatsApp 84 99135-8217, realizam um cadastro, recebem orientações sobre coleta e armazenamento e contam, inclusive, com o fornecimento dos frascos necessários para armazenar o leite até a coleta domiciliar.