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ENTRE FILTROS, AVATARES E NEGÓCIOS: COMO A NOVA ECONOMIA DA IMAGEM ESTÁ TRANSFORMANDO EMPREENDEDORES DIGITAIS NO RN

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Por muito tempo, abrir uma empresa significava alugar um ponto comercial, investir em estoque e conquistar clientes nas ruas. Hoje, em muitos casos, basta um smartphone, conexão à internet e uma audiência disposta a acompanhar a rotina de alguém nas redes sociais.

Em um cenário onde filtros remodelam rostos em segundos, avatares digitais reproduzem expressões humanas e ferramentas de inteligência artificial criam imagens, vídeos e campanhas publicitárias em poucos cliques, surge uma nova geração de empreendedores. Eles vendem influência, estilo de vida, experiências, conhecimento e, muitas vezes, a própria imagem.

A chamada economia dos criadores de conteúdo, ou creator economy, deixou de ser apenas uma tendência para se tornar um mercado bilionário em expansão. O fenômeno também já impacta o Rio Grande do Norte, onde influenciadores, pequenos negócios e criadores digitais transformam perfis em redes sociais em verdadeiras microempresas digitais.

Mas, junto com as oportunidades econômicas, cresce uma discussão que ultrapassa o marketing e alcança aspectos psicológicos, sociais e culturais: o que acontece quando a aparência deixa de ser apenas uma representação e passa a ser constantemente editada, aperfeiçoada e reconstruída por algoritmos?

A empresa sou eu
A transformação é visível nos números.

Dados do mercado de influência mostram que o Brasil possui cerca de 500 mil influenciadores digitais ativos e ocupa a segunda posição mundial em presença digital nas redes sociais. A expectativa é de crescimento entre 10% e 20% nos próximos cinco anos. Além disso, 54% das marcas investiram em marketing de influência em 2023 e 68% pretendiam ampliar esses investimentos.

A lógica é simples: em um ambiente saturado por publicidade tradicional, a recomendação de uma pessoa em quem o público confia tornou-se um ativo econômico valioso.

Foi exatamente esse movimento que transformou a rotina da influenciadora Alana Fernandes.

A trajetória começou em 2017, quando ela decidiu compartilhar experiências da gravidez da primeira filha. Sem planejamento empresarial ou estratégia de monetização, o conteúdo tinha caráter pessoal.

Com o passar dos anos, novas fases da vida foram sendo incorporadas ao perfil: decoração, reforma da casa, organização, maternidade, saúde, academia e estilo de vida. O público cresceu junto.

“O que começou como um hobby foi criando conexões genuínas. Vieram os primeiros recebidos, convites de lojas, restaurantes e parcerias locais. Aos poucos, transformei a criação de conteúdo em uma atividade profissional”, relata.

O processo, segundo ela, não foi imediato nem linear. A profissionalização aconteceu à medida que a audiência passou a responder de forma mais consistente ao conteúdo produzido.

“Primeiro vieram os recebidos, depois os convites para lojas, restaurantes e eventos. Eu percebi que aquilo que eu compartilhava tinha valor porque existia uma relação de confiança com quem me acompanhava. Hoje tenho parcerias fixas e uma relação profissional consolidada com diversas empresas. Mas isso levou anos. Não existe crescimento instantâneo”, disse.

Alana também chama atenção para um equívoco comum no mercado digital: a ideia de que o sucesso depende apenas de números.

“Muita gente acha que basta ter seguidores para ganhar dinheiro na internet, mas não é assim. O que realmente importa é a confiança. Existem perfis menores que geram mais resultado do que perfis grandes porque têm uma audiência muito engajada. O seguidor precisa acreditar no que você fala”, explica.

Hoje, Alana mantém contratos fixos com empresas dos segmentos de alimentação, decoração, maternidade e serviços, além de ter sido eleita Melhor Digital Influencer de Parnamirim em quatro edições consecutivas.

A influenciadora destaca ainda que seu conteúdo evoluiu junto com sua vida pessoal, o que reforça a relação de proximidade com o público: ““Quando digo que compartilho uma vida real, é porque meu conteúdo acompanha exatamente as fases que estou vivendo. Falo sobre maternidade, mas também sobre casa, rotina, saúde, academia, moda e empreendedorismo. Essa diversidade faz com que as pessoas se identifiquem comigo de forma verdadeira. ”

Sua história reflete uma mudança estrutural na economia digital: o criador de conteúdo deixou de ser apenas um usuário das redes sociais para se tornar uma marca.

Influenciadores viram microempresas

A transformação dos criadores em empreendedores tem sido acelerada pela inteligência artificial.

Segundo análise publicada pelo Propmark sobre a evolução da creator economy, as ferramentas de IA estão permitindo que influenciadores atuem como verdadeiras microempresas digitais, automatizando tarefas que antes exigiam equipes inteiras de produção, design, atendimento e marketing.

Na prática, um único criador consegue produzir imagens, vídeos, roteiros, campanhas, peças gráficas e até estratégias de conteúdo utilizando ferramentas que reduzem custos e aumentam a produtividade.

Esse movimento aparece também em pesquisas sobre o uso da inteligência artificial no marketing.

Levantamento nacional realizado pelo IAB Brasil em parceria com a Nielsen mostra que quatro em cada cinco empresas já utilizam IA em estratégias de marketing. Entre os principais benefícios apontados estão aumento da eficiência operacional (80%), maior velocidade de execução (68%) e suporte à tomada de decisões (49%). A criação de conteúdo aparece como a principal aplicação da tecnologia, utilizada por 71% das empresas entrevistadas.

Para Carlos von Sohsten, gestor do IALab do Sebrae-RN, a inteligência artificial está diminuindo barreiras históricas para quem deseja empreender no ambiente digital.

“A IA reduz custos de produção, aumenta a frequência de publicação e permite uma presença visual mais profissional. Um criador potiguar pode competir nacionalmente utilizando ferramentas que ampliam sua capacidade operacional”, explica.

Segundo ele, a imagem digital deixou de ser apenas um elemento estético para se tornar um ativo econômico: “Imagem, reputação e presença digital viraram ativos econômicos. A tecnologia não substitui autoridade, mas amplia a capacidade de gerar negócios. ”

O especialista acrescenta que a mudança se assemelha a uma nova fase da internet, em que ferramentas antes restritas a grandes empresas agora estão disponíveis para pequenos empreendedores.

“Hoje é possível produzir campanhas, vídeos e materiais com qualidade profissional sem grandes estruturas. Mas isso não elimina a importância da identidade e da estratégia. Pelo contrário, aumenta a necessidade de diferenciação”, relata.

“Imagem, reputação e presença digital viraram ativos econômicos. A tecnologia não substitui autoridade, mas amplia a capacidade de gerar negócios.”

Carlos von Sohsten, gestor do IALab do Sebrae-RN

O algoritmo como novo mercado
Se antes a localização física determinava boa parte das oportunidades de um negócio, hoje a visibilidade é decidida pelos algoritmos. Para pequenos empreendedores criativos, isso representa tanto uma oportunidade quanto um desafio.

Jéssica Matos, analista técnica do Sebrae-RN, observa que as redes sociais passaram a integrar o próprio modelo de negócio das empresas. “As redes deixaram de ser apenas uma vitrine. Hoje elas fazem parte da estratégia de relacionamento e da construção da identidade das marcas “, explica.

Ela reforça que o empreendedorismo digital exige novas competências: “Hoje não basta apenas produzir conteúdo. O empreendedor precisa entender posicionamento, narrativa, dados e comportamento do público. Ele precisa construir comunidade, não apenas audiência. ”

“Um pequeno negócio de moda, gastronomia, artesanato ou beleza no RN pode alcançar novos públicos sem depender de grandes verbas publicitárias. Mas isso exige planejamento, conhecimento de métricas e entendimento profundo da audiência”, conta.

Nesse contexto, os empreendedores passaram a investir não apenas em produtos e serviços, mas também em narrativa, posicionamento e construção de comunidade.

A estética da perfeição
Ao mesmo tempo em que cria oportunidades econômicas, o ambiente digital também produz novas pressões.

Nas redes sociais, filtros avançados e ferramentas de edição conseguem afinar rostos, modificar corpos, alterar tons de pele e criar versões altamente idealizadas da aparência humana.

É nesse contexto que surge o conceito de estética pós-humana, uma tendência visual marcada pela mistura entre características humanas e elementos digitais, frequentemente impulsionada por inteligência artificial.

A influenciadora natalense Kaline Cilene percebe diariamente os efeitos dessa lógica. “As pessoas buscam a perfeição o tempo todo. Esse padrão foi estabelecido e muita gente cai nessa armadilha. O problema é que isso não afeta só quem produz conteúdo, mas quem consome também”, relata.

Ela explica que o consumo constante de imagens editadas altera a percepção da realidade: “Muitas pessoas começam a enxergar defeitos que antes nem percebiam. Criam comparações com padrões que não existem na vida real. Isso gera insegurança e uma pressão constante por uma perfeição impossível.”

A dinâmica é reforçada pelo próprio funcionamento das plataformas digitais. “Existe uma pressão implícita para manter uma imagem aperfeiçoada. O conteúdo mais visualmente atraente costuma receber mais engajamento”, conta.

Entretanto, ela acredita que a autenticidade continua sendo o principal diferencial competitivo: “A estética pode atrair, mas é a autenticidade que conecta e converte.”

Quando a vida vira conteúdo
A monetização da rotina é uma das características mais marcantes da nova economia digital. Mas ela também levanta questionamentos sobre privacidade, saúde mental e limites da exposição.

A influenciadora e professora Cléa Rocha conhece bem essa realidade. Mãe de três filhos, ela produz conteúdo sobre maternidade e cotidiano familiar. Ao longo dos anos, percebeu que a internet mudou.

“O público gosta de acompanhar a vida real. Quanto mais real, mais as pessoas permanecem assistindo”, relata.

Para ela, essa proximidade com o público é ao mesmo tempo um ativo e um desafio. “As pessoas querem ver os bastidores, o café derramado, os erros, as conquistas. Isso gera identificação, mas também cria uma sensação de intimidade que faz muita gente acreditar que pode opinar sobre tudo da sua vida.”

Cléa afirma que a exposição exige limites claros: “Você precisa mostrar parte da sua vida para criar conexão, mas também precisa proteger o que é íntimo. Esse equilíbrio é difícil e precisa ser revisto constantemente.”

Recentemente, após publicar uma campanha envolvendo a filha para uma marca parceira, Cléa percebeu uma movimentação incomum de perfis masculinos interagindo com o conteúdo.

O episódio levou à retirada imediata da publicação: “A segurança e a paz da minha filha não têm preço.”

Ela também reforça que o trabalho do influenciador ainda é mal compreendido. “As pessoas veem um vídeo de poucos segundos e acham que foi fácil. Mas existe planejamento, edição, negociação, métricas, atendimento e estratégia. Você é praticamente uma empresa inteira. ”

A identidade editável
Os filtros, avatares digitais e ferramentas de IA estão produzindo uma mudança que vai além da estética. Especialistas apontam que a identidade digital se tornou cada vez mais editável, performática e moldada pelas plataformas.

Segundo Carlos von Sohsten, a identidade contemporânea já não é apenas física. “Ela passa a ser também algorítmica, replicável e mediada por plataformas. Isso cria oportunidades de expressão, mas exige transparência e responsabilidade.”

A transformação é impulsionada pelo avanço das tecnologias generativas. Pesquisa do IAB Brasil mostra que 43% dos profissionais já utilizam IA para criação e edição de imagens, enquanto 16% usam ferramentas para criação e edição de vídeos.

A tendência aponta para um futuro em que avatares hiper-realistas, vídeos sintéticos, clonagem de voz e influenciadores virtuais estarão cada vez mais presentes nas estratégias de marketing.

A profissionalização do mercado
O crescimento acelerado do setor também trouxe uma nova exigência: profissionalização. Se antes bastava acumular seguidores, hoje o mercado exige competências empresariais.
Alana Fernandes afirma que a monetização não está diretamente ligada ao tamanho da audiência. “Ter muitos seguidores não significa necessariamente ter influência. O que faz diferença é a confiança construída com o público”, explica.

Cléa Rocha concorda.

“Não importa se você tem cinco mil ou quinhentos mil seguidores. As marcas querem resultado”, explica.

No Sebrae-RN, a percepção é semelhante.

Jéssica Matos destaca que o criador de conteúdo moderno precisa dominar áreas que vão muito além da produção de vídeos: “Hoje o creator precisa entender posicionamento, precificação, negociação, reputação e relacionamento com marcas. Ele não é apenas comunicador, é empreendedo”.

Ela reforça que as empresas passaram a olhar o influenciador como ativo estratégico. “As marcas não compram apenas divulgação. Elas se associam à credibilidade construída com o público. ”

O futuro da economia da influência
Os próximos anos prometem aprofundar ainda mais a integração entre tecnologia, identidade e empreendedorismo.

De um lado, ferramentas de inteligência artificial continuarão reduzindo custos, aumentando produtividade e democratizando o acesso à criação de conteúdo.

Do outro, cresce a necessidade de preservar características que nenhuma tecnologia consegue reproduzir integralmente: autenticidade, repertório, experiência e conexão humana.

O próprio mercado reconhece essa dualidade.

Embora 69% dos profissionais considerem a inteligência artificial indispensável para o trabalho, existe preocupação com a excessiva automatização da comunicação e com a perda do senso crítico humano.

A nova economia da imagem nasce justamente dessa tensão.

Entre filtros e realidade.

Entre algoritmos e identidade.

Entre tecnologia e humanidade.

No Rio Grande do Norte, como em todo o mundo, empreendedor


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