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PALAVRAS QUE CURAM: PSIQUIATRA LANÇA LIVRETO DE “REMÉDIO POÉTICO”

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Entrar pela primeira vez em um consultório de psiquiatria costuma despertar sentimentos como medo, ansiedade e insegurança. Agora imagine sair da consulta, em vez de apenas com uma receita de medicamentos, levando um poema como parte do tratamento. Essa é a proposta do psiquiatra natalense Adriano Marcos Araújo de Souza, que transformou a literatura em instrumento de acolhimento emocional reunidas no livro “Palavras que Curam”.

Amante da poesia desde a adolescência, Adriano Araújo conta que o interesse em reunir poemas já conhecidos e suas próprias reflexões em um livro era um desejo antigo.

“Ou seja, essa ideia de um olhar terapêutico sobre a poesia é algo antigo, mas eu ainda não sabia como fazer isso. Minha ideia é criar com esse livro uma ferramenta terapêutica. Com o tempo fazer uma curadoria de textos, poesias que possam ajudar as pessoas. E ainda de forma mais ousada, que possa fazer as pessoas gostarem mais de ler, talvez para se sentir melhor”, afirmou.

Em uma conversa com uma amiga psicóloga, o psiquiatra falou sobre suas ideias. Como resposta, recebeu poesia. “Uma vez perguntei a uma psicóloga amiga, o que ela acharia se eu ao invés de prescrever remédios, começasse a prescrever poesias. Ela respondeu com um provérbio chinês: Se tiveres dois pães, vende um e compra um lírio”, lembrou.

Natalense, Adriano teve uma infância comum, de brincadeiras na rua, no bairro de Lagoa Nova, do jeitinho que se fazia antigamente.

“Eu era uma criança que gostava muito das brincadeiras na rua com as outras crianças, mas também era curioso. Sempre amei a escola e a aprender”, recordou.

E foi a partir dos livros que o pai costumava levar para casa, que encontrou prazer na leitura.

“Aprendi a gostar de ler muito cedo, meu pai trazia muitos livros para casa. Por volta dos 10 aos 13 anos já lia clássicos da literatura. Era excelente aluno. Fiz escola técnica, ETFRN (Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte), curso de mecânica. Na época participei de um movimento literário dentro da escola. Chamávamos nosso grupo de “Sótão 277” e lançamos vários fanzines, jornais e lancei um livro de poesias na época”, comentou.

A paixão pelo gênero literário começou a aflorar a partir do momento em que conheceu obras de grandes poetas. “Quando entrei em contato com vários poetas, Rimbaud, Baudelaire, Rilke, e tantos outros. Fui conhecendo mais e me apaixonando pelo gênero. Na poesia nacional tenho Manoel de Barros como minha bússola.”

ara ele, a poesia tem a capacidade de transcrever aquilo que, muitas vezes, não é possível se colocar em palavras, podendo, inclusive, trazer o alívio para a dor sentida naquele momento.

“A poesia de verdade toca no sentimento. E muitas vezes fala o que não conseguimos pôr em palavras. E muitas vezes, a cura ou o alívio do sofrimento vem a possibilidade de pôr em palavras o que sentimos.

Por isso, acredito que a poesia tem esse poder: conseguir enxergar em palavras o que não consigo falar para poder me ajudar”, explicou.

Nem sempre a psiquiatria esteve à frente dos seus planos para o futuro. Inicialmente, pensou em ser engenheiro mecânico, dando sequência ao curso dos tempos da Escola Técnica. Mas foi a paixão pela arte, pela poesia que acabaram o conduzido para a profissão que exerce com um olhar humanizado e afetuoso.

“Foi a arte que me aproximou da psiquiatria, foi me aproximando do humano. Quando pensei em fazer medicina, o fiz por causa da psiquiatria”, esclareceu.

No dia-a-dia, o exercício da profissão, segundo ele, traz alguns desafios, principalmente no que diz respeito ao autocuidado.

“O exercício da psiquiatria traz sim alguns desafios: lidar com o sofrimento e ajudar, conseguindo manter empatia, sem se misturar a esse sofrimento; enxergar a necessidade de acesso aos cuidados e ver que muitas pessoas não podem e não conseguem ter esse acesso”, comentou.

E é justamente no tratamento humanizado, na empatia com a dor do paciente, que o psiquiatra se diferencia. Com formação em Terapia Cognitivo Comportamental pela Associação Brasileira de Psicoterapia Cognitiva (ABPC), o paciente que entra pela porta do seu consultório e se vê diante dele, não sai com um receituário sem antes ser ouvido, olhado nos olhos.

Sobre a abordagem Cognitivo Comportamental, ele explica importância de o profissional estar atento à subjetividade de cada paciente.

“Na minha opinião qualquer abordagem psicoterapêutica pode favorecer um tratamento mais humanizado, porque faz com que o médico possa ficar mais atento a subjetividade da pessoa. Estar atento ao sofrimento psíquico, à subjetividade, comportamentos e relações, melhora a compreensão e possibilita uma visão mais ampla do sujeito”, esclareceu.

Na sua visão, de certa forma, a abordagem mais humanizada poderia ser vista como uma “via de mão dupla”, ou seja, auxiliar o paciente e ser auxiliado nos dias difíceis.

“A técnica pode ajudar o terapeuta se pautar melhor na relação com as pessoas. Entendendo exatamente o que pode fazer e qual seu papel na relação”, avaliou.

Em “Palavras que Curam”, Adriano Araújo traz suas reflexões e reúne também poemas de outros autores que, para ela, “tocam a alma”. A escolha por esses poemas, todavia, não foi uma tarefa fácil.

“Essa foi a parte mais difícil. Porque não foi uma escolha aleatória, são textos que me tocam como pessoa primeiramente e que fazem sentido para mim. Primeiro separei as indicações e fui garimpar os textos”, falou.

“Modo de Usar”
A primeira página do livro, ao contrário de ser apresentada como “Apresentação da Obra”, vem no estilo “Modo de Usar”, como uma bula de medicamento. A orientação é clara:
Este livreto é um estojo de primeiros socorros para a ajuda da alma. Cada página contém um “medicamento poético” prescrito para diferentes estados da alma.

Posologia geral:

  • Abra o livreto em qualquer página, ao acaso, como quem tira um oráculo do bolso.
  • Leia atentamente, como se fosse um bilhete escrito só para você.
  • Respire entre os versos.
  • Permita que as palavras dissolvam na boca do pensamento.
    Advertência Afetuosa:
  • Não há doses certas, nem quantidade máxima permitida.
  • Pode tomar de manhã, à tarde ou de madrugada.
  • Pode repetir a dose quantas vezes quiser.
  • Pode compartilhar com quem você ama.
    Sobre a escrita como forma de tratamento, o psiquiatra é enfático: “Não só escrever de forma mecânica, mas escrever de forma emocional, tentando pôr em palavras o que sente. Isso é reconhecidamente terapêutico”, finaliza.

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