
Quase metade dos homens com menos de 50 anos diagnosticados com câncer de próstata já recebe a notícia quando a doença se espalhou para outros órgãos, reduzindo as chances de cura e exigindo tratamentos mais complexos. O dado é de um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), baseado no Painel Oncologia do DataSUS. Entre 2024 e 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 9.352 diagnósticos da doença em homens com menos de 60 anos, sendo 940 em pacientes abaixo dos 50 anos.
Segundo a cirurgiã oncológica e diretora da vice-presidência da SBCO, Viviane Rezende de Oliveira, os números revelam um problema estrutural no diagnóstico da doença no país.
“Quando a gente fala que quase metade dos jovens brasileiros apresenta doença metastática ao diagnóstico, isso revela nada mais do que uma falha crítica no diagnóstico precoce”, explicou.
A especialista atribui esse cenário às barreiras de acesso ao sistema de saúde, às desigualdades socioeconômicas, à dificuldade de acesso aos serviços especializados e ao preconceito de muitos homens em procurar atendimento preventivo.
Outro fator apontado pela médica é que pacientes mais jovens costumam desenvolver formas mais agressivas da doença, reduzindo o tempo disponível para identificá-la ainda em fase inicial. “Ao contrário do paciente idoso, que geralmente apresenta um crescimento mais lento do tumor, o paciente mais jovem pode ter uma janela mais curta para detecção antes do aparecimento dos sintomas”, comentou.

Segundo ela, quando alterações urinárias ou dores ósseas surgem, “frequentemente esse paciente já está com uma doença localmente avançada ou metastática”, argumentou.
Viviane também ressalta que a percepção de que o câncer de próstata é uma doença exclusiva da terceira idade contribui para o diagnóstico tardio.
“Essa é uma percepção real e termina contribuindo significativamente para o diagnóstico tardio em homens mais jovens”, afirmou.
A SBCO lembra também que, além da idade, histórico familiar, obesidade e raça negra aumentam o risco para o desenvolvimento do câncer de próstata. Homens com pai ou irmão diagnosticados com a doença, especialmente antes dos 60 anos, apresentam maior probabilidade de desenvolver o tumor e devem discutir com o médico quando iniciar o acompanhamento.
No que diz respeito ao tratamento, quando o câncer permanece restrito à próstata, o tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia ou, em casos selecionados, vigilância ativa, estratégia indicada para tumores de baixo risco e crescimento lento. Já nos casos em que a doença é diagnosticada após atingir outros órgãos, a estratégia passa a priorizar o controle do tumor e a preservação da qualidade de vida, utilizando recursos como hormonioterapia, radioterapia, cirurgia em indicações específicas e outras terapias sistêmicas.
A entidade também reforça que a prevenção vai além dos exames. Não fumar, praticar atividade física regularmente, manter o peso adequado e adotar uma alimentação equilibrada ajudam a reduzir o risco de diversos tipos de câncer.