
Alvo da Operação Mederi, deflagrada pela Polícia Federal para apurar supostos desvios de recursos públicos na saúde de Mossoró, a secretária municipal de Saúde, Morgana Dantas, reagiu nesta semana às críticas feitas pelo secretário estadual de Saúde, Alexandre Motta, sobre a estrutura e o funcionamento do Hospital Municipal Francisca Gonçalves da Silva.
A manifestação ocorreu após Alexandre divulgar vídeo em que voltou a questionar a unidade inaugurada pela gestão do ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil), classificando o equipamento como uma policlínica e não como um hospital de fato. Em resposta, Morgana publicou vídeo nas redes sociais elevando o tom contra o titular da Sesap.
A reação ocorre enquanto a secretária enfrenta questionamentos decorrentes da Operação Mederi. A investigação apura contratos e pagamentos realizados a empresas fornecedoras de medicamentos durante o período em que Morgana atuou como ordenadora de despesas do Fundo Municipal de Saúde.
Apesar desse cenário, a gestora concentrou sua resposta em ataques ao secretário estadual.
Logo no início da gravação, Morgana classificou Alexandre Motta como o “pior secretário de Saúde da história”.
“O pior secretário de Saúde da história do Rio Grande do Norte tem um novo hobby: atacar o Hospital de Mossoró. Mas nós não vamos aceitar essa covardia”, afirmou.
Na sequência, associou as críticas do secretário aos problemas enfrentados pela rede estadual e acusou o Governo do Estado de utilizar o tema politicamente.
“Enquanto o caos do Tarcísio Maia permanece, enquanto o próprio governo é acusado de segurar leitos para sobrecarregar nossas UPAs, o secretário achou tempo para gravar vídeo para mentir sobre o nosso hospital”, declarou.
Ao longo do vídeo, a secretária prosseguiu com críticas ao secretário estadual e ao Governo do Estado, inclusive em tom pessoal, mas não respondeu diretamente aos questionamentos feitos por Alexandre Motta sobre a ausência de funcionamento noturno e nos fins de semana, nem sobre a inexistência de leitos de UTI na unidade municipal.
Críticas da Sesap
As declarações de Morgana foram motivadas por um novo vídeo publicado por Alexandre Motta, no qual o secretário voltou a questionar a estrutura do equipamento entregue pela gestão de Allyson Bezerra.
Segundo o titular da Sesap, a unidade realiza cirurgias eletivas de baixa complexidade em pacientes previamente selecionados e não dispõe de estrutura para atender casos mais graves.
“O hospital não tem UTI e não tem uma demanda para fazer algo que exija maior complexidade”, afirmou em entrevista anterior ao Diário do RN.
Motta também relatou que pacientes que apresentaram intercorrências precisaram ser transferidos para o Hospital Regional Tarcísio Maia.
“Toda cirurgia tem algum grau de imprevisibilidade. Se acontecer uma situação dessa lá, ele vai ter que encaminhar esse paciente para alguma porta de urgência”, alertou.
De acordo com parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS), hospitais devem oferecer assistência contínua à população, com atendimento de urgência e emergência 24 horas, leitos de internação, suporte intensivo e estrutura para atendimento de casos de média e alta complexidade.
Operação Mederi
A Operação Mederi investiga supostas irregularidades em contratos de fornecimento de medicamentos para a rede municipal de saúde de Mossoró.
Em decisão recente, o desembargador federal Rogério Fialho destacou que Morgana Dantas ocupava a função de ordenadora de despesas do Fundo Municipal de Saúde e era responsável pela homologação de licitações e autorização de pagamentos.
Segundo a decisão, a empresa Dismed Distribuidora recebeu R$ 5,864 milhões em recursos públicos apenas em 2024. Em uma das licitações analisadas, homologada pela secretária, a empresa venceu lotes de R$ 3,937 milhões, enquanto a Drogaria Mais Saúde, também investigada, obteve contratos de R$ 2,163 milhões.
Ao analisar os elementos reunidos pela investigação, Fialho observou que a homologação dos contratos por Morgana “ganha relevância” diante dos indícios de entrega parcial de medicamentos e superfaturamento. Embora a secretária não apareça diretamente nos diálogos interceptados, o desembargador registrou que os elementos apontam sua inserção nas “engrenagens que viabilizam o sucesso da empreitada criminosa”.
Morgana Dantas nega irregularidades. Até o momento, não há condenação judicial contra a secretária, e as investigações seguem em andamento.