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FÁTIMA: “O FEMINISMO É A LUTA PELA VIDA E PELA DIGNIDADE DAS MULHERES”

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No mês dedicado à reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade, o Diário do RN conversou com a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), sobre sua trajetória política, os desafios de ocupar espaços historicamente dominados por homens e as inspirações que marcaram sua caminhada. Da infância em uma família pobre do interior à chegada aos principais cargos da política potiguar, deputada estadual, deputada federal, senadora e governadora, ela relembra as motivações que a levaram à militância, fala sobre referências femininas que moldaram sua visão de mundo e analisa o cenário atual da participação das mulheres na política.

Na entrevista a seguir, a governadora também comenta sua visão sobre o feminismo, os avanços conquistados e os obstáculos que ainda persistem para que mulheres ocupem, de forma mais ampla, os espaços de poder e decisão.

Diário do RN – Por que resolveu entrar na política?
Fátima Bezerra – Isso tem origem na minha própria condição de classe social. Venho de uma família muito pobre, que enfrentou muitas dificuldades na vida. Acho que isso está na essência de eu ter sido atraída para a militância política e social. De uma forma que não foi planejada, a política foi se apresentando para mim como um caminho para enfrentar a injustiça, a opressão e as desigualdades. Surgiu como uma forma de lutar em defesa dos excluídos, dos que foram destituídos do direito de viver com dignidade, cidadania e sem violência.

Minha entrada no PT se encaixou nesse contexto, pelo próprio DNA do partido, que nasceu para lutar pelos direitos do povo trabalhador. E imagine: que outro partido possibilitaria que uma pessoa com a origem que tenho pudesse chegar aonde cheguei? Essa essência continua até hoje me inspirando: o sentido de me juntar a outras pessoas para lutar por mais direitos, oportunidades, justiça e cidadania.

Um exemplo muito concreto disso é a conclusão da transposição do São Francisco. A alegria que tenho de, junto com Lula, entregar a conclusão das águas do São Francisco pelo caráter civilizatório dessa obra. Para quem, quando menina, sentiu a sede de perto, hoje poder celebrar um ato desses é reafirmar que a política vale a pena. A política feita com seriedade, com espírito público e compromisso com a coletividade, pensando em melhorar a vida do povo, vale a pena. E faz compensar inclusive as agruras que nós mulheres ainda enfrentamos na participação política, embora já tenhamos vencido muitas barreiras.

DRN – Quais foram as inspirações para iniciar na política, e quais são inspirações hoje?
Fátima Bezerra – Quem primeiro me inspirou foi D. Luzia, minha mãe. Uma mulher nordestina que enfrentou tempos muito difíceis e conseguiu cuidar da família e dos filhos com tanta amorosidade. Ela foi um exemplo permanente de dedicação ao próximo. Como parteira, passou a maior parte da vida cuidando e dando assistência a mulheres em um dos momentos mais sagrados da vida, que é o momento do parto. Minha mãe nos deu lições profundas de solidariedade e generosidade que até hoje estão marcadas em nosso coração como fonte e propósito de vida.

Tínhamos uma família pobre, mas ela sempre enxergava que havia pessoas ainda mais pobres do que nós. E quanto mais difícil era a situação de alguém, maior era o zelo e a dedicação dela para ajudar. Ao jeito dela, e sem conhecer esses termos, minha mãe fazia uma militância social e humana extraordinária. Era uma mulher com um profundo senso de justiça.

Hoje há inúmeras mulheres desbravadoras que me inspiram. Mas gostaria de citar Dilma Rousseff, pela resiliência, pela altivez e pela história de vida. E Michelle Bachelet [ex-presidente do Chile], que cunhou uma frase muito forte: “quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política”.

DRN – Deputada estadual, federal, senadora e governadora, qual foi o cargo mais desafiador até agora como mulher na política?
Fátima Bezerra – Sem dúvida, o de governadora, pelas condições em que encontramos o Rio Grande do Norte. Era o estado mais violento do país, que não conseguia honrar seu compromisso mais básico, que era pagar os servidores públicos, e tinha serviços públicos essenciais completamente sucateados.

Mas, se foi o cargo mais desafiador, também é motivo de muito orgulho ter sido eleita e reeleita governadora pelo povo do Rio Grande do Norte. Tenho muito orgulho do trabalho que temos realizado junto à nossa equipe de governo e dos legados que estamos construindo.

Na segurança pública, na saúde, no enfrentamento à violência, conquistamos avanços importantes que impactam diretamente a vida das mulheres potiguares. Além disso, há obras estruturantes como a conclusão da transposição do São Francisco e a duplicação da BR-304. São entregas que dão sentido à nossa luta e ao nosso trabalho.

Sou eternamente grata ao povo do RN, que me acolheu de forma tão generosa e me permitiu ser deputada estadual, deputada federal, senadora e governadora, dando a oportunidade de defendê-los em todos os espaços que ocupei. É uma honra imensa trabalhar todos os dias para melhorar a vida do nosso povo.

Em todos os lugares onde estive e estarei, sigo guiada pela defesa dos interesses do povo, especialmente dos que mais precisam, fazendo política com dignidade, honestidade e com a cabeça erguida.

DRN – Quais são os desafios de ser uma mulher num espaço ainda majoritariamente masculino?
Fátima Bezerra – A política é um retrato da sociedade. Muitas das dificuldades que enfrentamos como mulher na política são enfrentadas pelas mulheres no mundo corporativo, jurídico, no mercado de trabalho de forma geral. Apesar dos avanços que conquistamos, a política ainda é um espaço onde as mulheres são minoria. Estamos sub-representadas.

Na eleição de 2018, por exemplo, fui eleita a única governadora em 27 estados do país. No parlamento também não chegamos sequer a 20% de mulheres na Câmara ou no Senado. E as que estão nesses espaços sofrem ataques, tentativas de desqualificação, ameaças e até processos de cassação de seus mandatos.

Há mulheres, como Marielle, que pagaram com a vida pela ousadia de fazer política. Mesmo assim seguimos firmes, porque sabemos que cada mulher que rompe essa barreira e ocupa um espaço de poder ajuda a abrir portas para outras.

Se o Brasil tem maioria feminina na população, essa representação precisa ser melhor distribuída. Essas vozes precisam ser ouvidas. Mulheres que defendem a democracia, quando chegam à política, governam e legislam de forma mais inclusiva e abrangente.

DRN – Como a sra enxerga o feminismo, o que entende pelo movimento? Se sente acolhida pelo feminismo?
Fátima Bezerra – O feminismo é a luta pela vida e pela dignidade das mulheres. Muitas conquistas que temos hoje no mercado de trabalho, na política e na sociedade são fruto dessa luta histórica. É um movimento cada vez mais necessário diante de tempos de misoginia, de discursos de ódio, de opressão e de violência que continuam ceifando a vida de tantas mulheres e deixando marcas profundas por meio da violência física, sexual, psicológica e patrimonial.

O feminismo nunca quis estabelecer uma rivalidade entre mulheres e homens. Ao contrário, ele busca respeito. É um movimento que defende igualdade, paz e não violência. Afirma que a vida das mulheres importa e que mulheres são seres humanos, não objetos de poder, posse ou dominação.

Também precisamos compreender que o machismo prejudica toda a sociedade. Ele impõe aos meninos modelos de masculinidade muitas vezes violentos e adoecedores. Para as mulheres, porém, o machismo significa medo, abuso e morte desde muito cedo. Por isso, toda a sociedade precisa se unir para enfrentar essa epidemia de feminicídios, estupros e violência doméstica.

O Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, lançado recentemente pelo próprio presidente da República e que convoca todos os poderes, é uma iniciativa extremamente necessária. A sociedade precisa se comprometer com essa luta.

Como governadora, não medi esforços para contribuir com a construção de um estado mais justo, democrático, inclusivo e acolhedor para todas as pessoas, em especial para as mulheres. Entre as ações realizadas, destaco a ampliação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, a criação da Casa Abrigo, a implementação da Patrulha Maria da Penha em todas as regiões do estado e o fortalecimento de programas como o Maria da Penha Vai à Escola e o Maria da Penha Vai às Cidades.


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