
No estúdio da fotógrafa Ana Galvão, o câncer deixa de ocupar o centro da história por algumas horas. Entre luzes, sorrisos e conversas, mulheres que já enfrentaram a doença encontraram um espaço para enxergar além do diagnóstico. A fotografia passa a registrar não apenas um momento, mas um reencontro com a autoestima, a feminilidade e as próprias lembranças.
A iniciativa nasceu há cerca de nove anos como um projeto social. Ana decidiu oferecer ensaios fotográficos gratuitos para mulheres em tratamento contra o câncer, com o objetivo de presenteá-las com imagens capazes de resgatar a forma como se viam. Desde então, a fotógrafa passou a desenvolver outras ações solidárias, sempre utilizando a fotografia como ferramenta de transformação.
“O ensaio fotográfico, na minha opinião, serve como um trabalho que mexe com as memórias afetivas das pessoas. O que eu percebo é que durante o ensaio fotográfico elas esquecem completamente a dor do que estão vivendo, do diagnóstico. A gente reforça a beleza, reforça a autoestima delas e não tem nenhum momento durante o ensaio fotográfico que elas citem sobre o diagnóstico e sobre o que elas estão vivendo. Então eu percebo que é uma entrega tão grande em relação à autoestima que o diagnóstico passa despercebido”, explicou Ana Galvão.
Ao longo dos anos, a fotógrafa acumulou histórias que marcaram sua trajetória profissional e pessoal. Muitas mulheres chegam ao estúdio sem nunca terem vivido a experiência de um ensaio fotográfico.
“As histórias mais lindas que eu tenho desses ensaios são mulheres que nunca tinham feito um ensaio fotográfico. Muitas delas nunca tinham se maquiado, nunca tinham se arrumado pelo corre-corre da vida, às vezes por fatores até financeiros. Algumas relatam para mim: ‘Era o sonho da minha vida fazer um ensaio fotográfico e eu nunca pude’. Elas se deslumbram até em ver o ambiente e isso me emociona muito”, comentou.
Entre tantas lembranças, uma permanece especialmente viva em sua memória. Era uma senhora que chegou ao estúdio tímida, dizendo que nunca havia se sentido bonita e que, naquele momento da doença, não fazia sentido posar para fotografias.
“Ela dizia que era velha, feia e estava com câncer. A gente começou a brincar, ela foi se soltando e, no fim, fez uma foto de blazer, sem sutiã, mostrando a pele, rindo, olhando para cima, com um sorriso largo. Inclusive, essa fotografia foi para uma exposição. Foi uma das coisas mais marcantes que eu vivi”, afirmou.
Outra história emocionante envolveu uma paciente que perdeu o marido enquanto ambos enfrentavam o câncer. Durante o ensaio, Ana entregou uma flor à mulher e pediu que ela a mantivesse erguida em algumas fotografias. Somente ao final revelou o significado daquele gesto.
“Na minha cabeça, a flor significava o marido dela. O sorriso, o toque na flor e esse gesto para o alto eram como se ela estivesse oferecendo aquela flor para ele. Quando expliquei isso, ela caiu em lágrimas, eu também me emocionei. Eu procuro fazer os ensaios com essas pílulas de amor sentimentais, porque é isso que marca”, disse a fotógrafa.
Apesar da carga emocional das histórias, Ana admite que nem sempre é fácil manter o equilíbrio diante de tantos relatos.
“Já me emocionei várias vezes durante os ensaios. Me emociono quando elas contam sobre as famílias, principalmente quando são mães de crianças pequenas. Como também sou mãe, isso mexe muito comigo. Fico imaginando essas crianças sem suas mães. Essa é uma das maiores dificuldades que tenho de fotografar”, relatou.
Para que cada mulher se sinta confortável, a fotógrafa também adapta o ambiente do estúdio. Ela utiliza uma iluminação mais simples, evita excesso de equipamentos e mostra as imagens na televisão durante o próprio ensaio, permitindo que as pacientes acompanhem o resultado em tempo real.
“Você percebe nitidamente, durante a sessão, a construção da autoestima e da autoconfiança dessas mulheres. Se o ensaio durar uma hora, as melhores fotografias normalmente acontecem depois dos 40 minutos”, explicou Ana.
Ao apresentar as primeiras imagens, ela costuma repetir uma frase que se tornou sua marca registrada: “Você também é aquele mulherão”.
“A fotografia, para mim, é um objeto de transformação das mulheres. Quando elas chegam aqui e se veem bonitas, elas entendem que também podem ser aquele mulherão que admiram nas revistas ou nas redes sociais. Ver essas mulheres esquecerem as dores e se transformarem durante o ensaio não tem preço. A fotografia foi um objeto transformador na minha vida e eu tento deixar um pouco dessa transformação na vida de cada pessoa que passa pelo meu estúdio”, concluiu Ana Galvão.


