
O mais recente episódio da novela envolvendo a Federação União Progressista teve, mais uma vez, como protagonista o ex-deputado Kelps Lima, aliado declarado do ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato ao Governo do Estado, Allyson Bezerra (União Brasil). Ao intensificar ataques ao deputado federal Robinson Faria (PP), Kelps acabou criando uma situação desconfortável para o próprio projeto político que afirma defender.
Na prática, o ex-deputado termina jogado o “pior governador dos últimos 40 anos”, como ele próprio classifica Robinson, diretamente no colo de Allyson. O problema é que Robinson não é apenas mais um integrante da Federação União Progressista. Trata-se de um dos principais aliados do ex-prefeito de Mossoró e peça importante na construção do projeto político que busca levar Allyson à disputa pelo Governo do Estado em 2026.
A situação ganha desdobramentos ainda mais delicados porque o próprio Kelps já declarou, em outras ocasiões, que sua permanência no União Brasil está diretamente ligada à relação política e pessoal que mantém com Allyson. Ainda assim, as críticas dirigidas ao ex-governador acabam atingindo um dos nomes mais próximos do grupo aliado ao ex-prefeito mossoroense.
Durante agenda no Oeste potiguar no último fim de semana, em entrevista à TCM, Kelps voltou a disparar contra Robinson, seu adversário direto na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados. O tom adotado chamou atenção pela dureza das críticas e pela associação direta ao período em que Robinson governou o Rio Grande do Norte.
“É preciso dizer à população do Rio Grande do Norte que eu concorro com o pior governador dos últimos 40 anos aqui”, afirmou.
Ao justificar a declaração, o ex-deputado relembrou os atrasos salariais registrados no fim da gestão Robinson. “O deputado cheio de gente que ficou com o salário atrasado. Aí ninguém vai dizer isso. Eu vou”, declarou.
As críticas prosseguiram. Kelps afirmou que foi líder da oposição durante a administração do ex-governador e procurou marcar distância política do parlamentar.
“Essas verdades precisam ser ditas, porque senão vão pensar que eu sou igual a ele. E eu não sou igual a Robinson Faria. Eu sou muito diferente e fui líder da oposição no governo desastrado de Robinson”, disse.
O próprio Kelps reconheceu o paradoxo da convivência dentro da mesma federação ao comentar a relação entre os dois grupos.
“A conjuntura política, por causa da minha amizade e relação com Allyson, faz com que a gente esteja na mesma federação. Mas Robinson Faria joga um jogo antigo, velho, ultrapassado. Eu jogo outro jogo”, afirmou.
A ofensiva não ficou restrita à entrevista. Em outra publicação que repercutiu nas redes sociais, Kelps voltou a ironizar o legado administrativo do ex-governador ao fazer referência às quatro folhas salariais deixadas em atraso ao final de 2018.
“Esse rapaz deixou bem pouquinha gente com salário atrasado no Rio Grande do Norte”, disse, em tom irônico, ao ver Robinson se aproximar no mesmo evento que participava. Em seguida, completou: “Mas esse ano quem vai deixar ele sem salário somos nós. Vá por mim. Quando o povo quer, não tem quem segure, completou”.
Aliança polêmica com Abraão Lincoln
A polêmica, porém, não se limita às declarações contra Robinson Faria. Outro fator que tem chamado atenção nos bastidores é a aproximação de Kelps Lima com Abraão Lincoln, citado nas investigações da chamada “farra do INSS”, que apura mais de R$ 200 milhões em descontos indevidos de aposentados e pensionistas.
Abraão, que chegou a ser preso em novembro do ano passado, apareceu ao lado de Kelps em agenda política realizada em Caiçara do Norte, no mês de maio. A imagem repercutiu entre adversários e acrescentou um novo foco de desgaste à Federação União Progressista, já pressionada pelas declarações do ex-deputado contra Robinson Faria.
O Diário do RN procurou ouvir o deputado Robinson Faria sobre as declarações de Kelps, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. A reportagem também buscou contato com o presidente estadual do União Brasil, José Agripino Maia, e com o ex-prefeito Allyson Bezerra. Ambos mantiveram silêncio, repetindo a postura adotada em episódios anteriores envolvendo os atritos internos da Federação.