
A prisão de Aluísio Farias Batista, condenado pela Tragédia do Baldo, trouxe à tona um dos episódios mais marcantes da história do Rio Grande do Norte. Foram mais de 40 anos foragido. O acidente, que matou 19 pessoas durante o Carnaval de 1984, marcou uma ruptura na forma como os natalenses viviam a festa e alterou o perfil do Carnaval de rua da capital por décadas.
Na década de 1980, o Carnaval natalense tinha nos blocos de rua um de seus principais símbolos. Entre eles estava o Cordão do Puxa-Saco, fundado em 1975 pelo produtor cultural Dickson Medeiros. O bloco desfilava pela região do Baldo e reunia centenas de foliões em uma época em que, segundo ele, o objetivo era apenas brincar o Carnaval.
“Eu sou de uma época em que o Carnaval tinha glamour. Era orquestra de frevo, não tinha sonorização. Os blocos eram puxados por tratores com carros alegóricos e a orquestra seguia tocando enquanto os componentes acompanhavam pelas ruas.”
Dickson conta que os chamados “assaltos” faziam parte da tradição carnavalesca. Durante o percurso, os blocos paravam em casas de moradores que ofereciam comida e bebida aos foliões. “Naquela época a gente brincava Carnaval para brincar Carnaval. Hoje é diferente. O Carnaval virou uma indústria”, relata.
Para o professor de História, Dr. Lenin Campos Soares, o modelo do Carnaval natalense refletia o perfil social da cidade naquele período. “O carnaval na década de 1980 era dos cordões, blocos de rua da elite da cidade. E também dos bailes de carnaval, com máscaras e lança-perfume.”
Segundo o historiador, blocos como o Puxa-Saco concentravam moradores de bairros tradicionais da capital: “Os blocos eram frequentados pela elite, por isso o Baldo. A elite morava naquela região, em bairros como Petrópolis, Cidade Alta e Tirol.”
Lenin faz, no entanto, uma ressalva. Apesar da importância daquele momento, ele destaca que o Carnaval sempre existiu em Natal.
“O Carnaval sempre existiu aqui. O que aconteceu foi uma ruptura dessa tradição com a Tragédia do Baldo.”

A madrugada que interrompeu a festa
Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, por volta das 0h50, cerca de cinco mil pessoas acompanhavam o desfile do Cordão do Puxa-Saco pelas ruas da Cidade Alta quando um ônibus desgovernado invadiu o percurso do bloco.
Segundo as investigações da época, o motorista Aluísio Farias Batista conduzia o coletivo após uma longa jornada de trabalho. Antes de atingir os foliões, o ônibus colidiu com um veículo estacionado, atravessou o canteiro central da Avenida Rio Branco e invadiu a área isolada para o desfile carnavalesco.
O acidente matou 19 pessoas e deixou dezenas de feridos.
Naquele ano, o Puxa-Saco completava dez anos de existência. Dickson Medeiros lembra que o bloco passava por uma transformação, deixando o formato tradicional dos cordões para se aproximar do modelo das bandas carnavalescas que começavam a surgir em Natal.
“O Puxa-Saco estava quase completando dez anos. A gente já via que ele estava saindo do modelo alegórico para virar uma banda.”
O trauma que mudou o Carnaval
Mais de quatro décadas depois, Dickson Medeiros ainda relembra com emoção a noite da tragédia. Ele afirma ter sido um dos primeiros a chegar ao Hospital Walfredo Gurgel e recorda a morte de Simone Banhos, integrante da diretoria do bloco.
“Quando cheguei ao hospital, o médico disse que Simone tinha acabado de falecer. Eu fiquei completamente sem chão.”
Para o historiador Lenin Campos Soares o episódio mudou o comportamento dos foliões: “O acidente assustou as pessoas e fez com que elas deixassem de frequentar o carnaval de rua.”
O medo levou muitos natalenses a trocar os blocos pelas praias e casas de veraneio do litoral potiguar.
“A tragédia fez com que as pessoas mudassem a folia para as praias”, acrescentou.
Segundo o pesquisador, embora as casas de veraneio já fossem uma tradição entre parte da população da capital, o acidente acelerou esse movimento e enfraqueceu o Carnaval de rua durante anos.
“Ela representa um marco que dividiu a história do Carnaval em Natal. A festa de rua só voltou a ganhar força a partir dos anos 2000.”
As vítimas
Abimael Florêncio Bernardo (18 anos) – Estudante.
Acelúsio Borges Gomes (33 anos) – 2º sargento da Polícia Militar.
Astor dos Santos Dantas (27 anos) – Sargento do Exército e músico.
Benedito Alves da Silva – policial militar.
Dinarte de Medeiros Mariz Neto (19 anos) – Estudante de Engenharia Mecânica na UFRN e neto do ex-senador Dinarte Mariz.
Esdras César da Silva, “Lelé” (56 anos) – Músico.
Francisco Alves da Silva (34 anos) – 3º sargento da PM.
Jaeci Cabral de Oliveira – Ex-soldado da Polícia Militar.
Jethe Nunes de Oliveira (32 anos) – 2º sargento da PM.
João Felix de Lima, “Reis” (36 anos) – 2º sargento do Exército e músico.
José dos Santos Xavier (47 anos) – Músico.
José Luis da Silva (28 anos) – 2º sargento da PM.
Luis Inácio da Silva (46 anos) – Músico.
Milton Cevita de Brito (59 anos) – Advogado.
Murilo Alberto Viana da Silva (36 anos) – Eletricista da Cosern.
Rizomar Correia dos Santos (26 anos) – 3º sargento do Exército.
Simone Banhos Teixeira (20 anos) – Estudante de Psicologia na UFRN.
Wellington Teófanes de Assis (31) – Trabalhava em uma empresa de construção.
Wallace Martins Gomes (22 anos) – Operário.
Preso após 42 anos foragido
A Polícia Civil do Rio Grande do Norte prendeu Aluísio Farias Batista, de 69 anos, condenado a 21 anos de prisão pelos crimes relacionados à Tragédia do Baldo, um dos episódios mais marcantes da história potiguar. A captura ocorreu durante a Operação Resgate, realizada em conjunto com a Polícia Civil de Mato Grosso, estado onde ele vivia há décadas.
Foragido por mais de 42 anos, Aluísio foi localizado após uma investigação baseada em cruzamento de informações cadastrais, análises documentais e procedimentos de comparação facial. Durante as diligências, os investigadores identificaram que ele utilizava a identidade de um homem falecido em Natal e, com o documento falso, renovou a Carteira Nacional de Habilitação em 2021 para continuar exercendo a profissão de motorista.
Os policiais foram inicialmente ao local de trabalho do condenado, mas não o encontraram. Em seguida, se deslocaram até a residência onde ele morava. Ao ser abordado, Aluísio apresentou a identidade falsa, mas acabou confessando quem realmente era depois que os investigadores demonstraram conhecer sua verdadeira identidade e todo o histórico levantado durante a investigação.
Após o cumprimento do mandado de prisão definitiva, ele foi encaminhado ao sistema prisional para cumprir a pena em regime fechado.